quinta-feira, 6 de abril de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo V




Eu desenvolvia os planos mais mirabolantes e maquiavélicos pra fazer com que os rapazes bonitos e bem vestidos daquela noite pagassem pelo que tinham feito. Havia noites que eu simplesmente não dormia, apenas imaginando o que eu faria se caso conseguisse mantê-los amarrados em alguma masmorra da vida. Pensava que ia pisar tanto na cara deles, machucar os testículos até que se tornassem papas; às vezes até chorava, mas aquelas lágrimas me faziam bem. Talvez eu tivesse me tornando psicopata. Mas quem poderia me julgar depois de tudo que passei. Mas logo me vinha a ideia de que talvez eu já fosse mesmo um monstro antes, e aquela era apenas uma desculpa que eu encontrava pra justificar minha sede de sangue. Não importava o que eu fizesse, a culpa era minha companheira inseparável. Diante de uma violência como aquela a gente simplesmente se culpa pelo ato em si e por todos os pensamentos ruins que nos vem posteriormente. Se eu tivesse somente sofrido um assalto, uma violência física, talvez só quisesse esmagar os bandidos, mas eu não conseguia só desejar a morte deles, eu precisava de mais e aquilo me torturava. 

Mas os meus planos podiam até ser funcionais, mas esbarravam numa coisa besta que era o fato de que eu sequer podia sair de casa sem que minha mãe acionasse os bombeiros, o exército, até a mesmo o FBI. Então só me restava esperar a minha volta ao colégio, agora no ensino médio. Tantos planos que eu havia feito  pra quando finalmente fosse para o ensino médio; matar aula pra ir à lanchonete e paquerar com os garotos, namorar e namorar... Seria a liberdade que eu tanto esperava, mas como eu era a celebridade da cidade, nada daquilo talvez fosse possível. E aquela minha corrida aparentemente sem rumo não ajudou muito pra melhorar minha imagem, pois me promoveu de louca à maluca de pedra no falatório do povo. É muito difícil que as pessoas ditas normais entendam determinados atos da gente. Existe um manual pronto da sensatez, qualquer coisa que fuja das linhas inflexíveis desse manual é considerada loucura. Mas se eu fosse normal e todos é que fossem loucos? Como saber. 

Evolvida por aqueles pensamentos, eu não sentia vontade de ir à escola, pois teria que enfrentar os olhares e aqueles sussurros idiotas que as pessoas julgam que a gente não tá escutando: “olha a maluca!", "Essa ai é aquela doida que arrancou a orelha do filho do delegado!". Eu pensava em tudo de antemão, afinal, o que não me faltava era tempo pra pensar, uma vez que não fazia nada. Eu pensava: será que eu arranjaria amigos? Será que eu ainda tinha a capacidade de me apaixonar como antes? Será que eu realmente ia conseguir me adaptar a nova realidade? Como Carina fazia falta. Eu queria muito que ela me antecipasse como era estudar no ensino médio; se tinha meninos bonitos, se era realmente divertido como nós imaginávamos no passado, mas ela parecia ignorar minha existência. Como eu não me encontrava mais no manicômio uma vez ou outra me vinha essas preocupações normais de todo mundo e, com isso, sabe, eu me considerava como qualquer pessoa. Porém, minha mente era do inferno ao paraíso o tempo todo. Confesso que eu vivenciava bem mais o inferno.  

Bem, como o tempo não para, o natal passou, o ano passou e, eu fiquei em casa de mente cheia, porém alimentada pelo diabo, uma vez que sem ver o mundo externo eu não tinha a oportunidade de preenchê-la com pensamentos ditos comuns. 

Chegada a hora de ir à escola, eu revivi momentos do passado; fui tomar banho as onze e quarenta, pois Carina sempre tomava banho ao meio dia; vesti meu uniforme ridículo, calcei minhas congas ridículas e, munida com minha mochila ridícula, fui pra calçada esperar que Carina se arrumasse. Do lado de fora, era como se a Tati fosse chegar aos gritos a qualquer momento dizendo que estávamos atrasadas, mas o meu desejo que ela aparecesse não era suficiente.

Carina, mesmo sem querer, era obrigada a me acompanhar até a escola, pois segundo minha mãe ela era a mais velha e tinha mais juízo. E naquela tarde, enquanto a gente caminhava na estrada que conhecíamos bem, embora sem proferir uma única palavra, eu senti que finalmente estávamos fazendo algo juntas de novo. Juro que em dois anos, foi sob aquele sol escaldante que eu consegui respirar sem sentir aquele aperto no peito que sempre sentia. Caminhar com Carina pra o mesmo destino me proporcionou tanta felicidade que eu quis andar me equilibrando no meio fio, mas logo percebi que não era mais criança, então um sorriso bobo me veio, um sorriso tão sincero que culminou numa lágrima boba de felicidade que eu tive que me virar pra disfarçar. Eu quis pegar uma daquelas flores violetas a beira da estrada e colocar no cabelo dela e abraçá-la forte, mesmo que não disséssemos nada uma pra outra. Bem, só diria uma coisa: "senti tua falta sua égua!". O mais legal era que ela fizesse isso, assim, eu teria certeza que ela estava de volta. Mas era só um sonho. 

Depois de caminharmos uns dez minutos, um carro simplesmente quase nos atropela. Senão tivéssemos corrido e dado à volta no chafariz ali próximo, eu não estaria aqui pra contar essa história. Mas foi Carina que percebeu, eu me encontrava absorta em meus pensamentos de modo que a realidade pouco me importava, então ela segurou forte em meu braço e, mesmo eu não entendendo nada, me puxou e me salvou. Pode até ser que nossas mentes jovens tenham enaltecido o fato em demasia, mas Carina realmente ficou muito assustada com aquilo e não era pra menos; um carro preto, de modelo que eu jamais vou saber, saiu da estrada e nos forçou correr desesperadamente pra salvarmos nossa vida. Carina, apreensiva como nunca eu tinha visto antes, implorava desesperada que eu não contasse nada para os nossos pais. Eu jurei tão feliz que jamais contaria. Ora, estávamos finalmente sendo irmãs novamente...

Nenhum comentário:

Postar um comentário