sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Sozinho


Numa tarde morna, sentado em um banco de praça de uma cidade que não era dele, aquele homem de quarenta um anos observava os transeuntes e verificava melancólico que ninguém daquela cidade era dele;  e ele também não era de ninguém.

Vazio, ele  refletia sobre toda a sua vida até ali; contabilizava que dos amigos do passado, das pessoas que lhe surgiram ao longo da sua existência, não restava mais um sequer ao seu lado. Nem mesmo recebia uma mensagem, um e-mail, um sinal de fumaça que fosse como prova de que alguém ainda se lembrava dele.

Ele olhava para o horizonte constatando que falhara em tudo. Ainda que tivesse uma carreira sólida, um nome no campo da filosofia pra zelar, falhara em tudo porque não tinha montado o seu mundo de gente.  Chega certo ponto que, cães, gatos, peixes em aquários eletrônicos, não preenchem o vazio de pessoas que te ame verdadeiramente. Ou que o ame por obrigação ou por laços genéticos, pouco importa, mas todos precisamos de pessoas de modo a sentirmos que somos de alguém e que alguém é da gente.
Ali, ele sentia que todo o egoísmo de sua juventude fora um grande erro. Arrependido, se deu conta que não devia ter deixado escapar todos os amores da sua vida como fez. Devia ter lutado mais, nem que fosse pelo último amor eterno que imaginou que sentia. A saudade lhe ardia por dentro como gotas de sal jogadas no seu coração ferido. 

Eis que, pensando em desistir de tudo, ele sente uma pessoa se aproximar por trás e cobrir os seus olhos com suas mãos frias. Assustado, ele relembra daquela brincadeira infantil com uma doce nostalgia, mas ao constatar a sua idade, se enrubesce ao perceber o quão ridículo aquela cena parecia aos olhos dos jovens que passeavam na praça àquela hora. Ele toca as mãos por ora estranhas e nota a maciez e o cheiro de mãos de mulher. Minuciosamente, ele tocas  as unhas de todos os dedos constatando que eram curtas; o que evidenciavam uma vaidade pouco exacerbada de quem carregava aquelas mãos.
Porém, cansado das desilusões da vida real, ele resolve acabar com a brincadeira alegando que  fosse quem fosse não seria mesmo quem ele queria que fosse, então era melhor que ela se relavasse, poupando assim os dois daquele embaraço.  Mas a pessoa ignorou seu pedido completamente e continuou. Ocorre naquele homem escaldado pela realidade que, já que não tinha jeito, era melhor entrar na brincadeira e começar chutar nomes, assim, pelo menos, ele adiaria a decepção de não ser quem ele desejava.

Depois de citar dezessete nomes de pessoas do trabalho, ele passa realmente acreditar que talvez fosse alguém do seu passado. Um filme passava em sua cabeça enquanto o calor do seu desejo já aquecia aquelas mãos outrora frias.
“E se fosse aquele sorriso que eu tanto amei? E se fosse aquela voz grave  e suave ao mesmo tempo, como da âncora do jornal das sete? E se fosse aqueles olhos negros, acompanhado daqueles cabelos naturalmente lisos que eu tanto imaginei afastando uma mecha do rosto pra um beijo na testa? Ah se fosse..."     

O seu coração parecia que ia saltar pela boca, suas pernas tremiam e as indagações lhe surgiam:
“Se realmente for ela? O que eu vou dizer? Provavelmente nada. Sempre tive dificuldade de falar com ela. Talvez eu aperte aquele abraço nunca dado que até hoje guardo em meus braços.”  
Eis que, naquele momento, nitidamente o seu nervosismo transparece ao ponto de não lhe ocorrer mais nomes pra chutar e o silêncio prevaleceu. Diante do silêncio, aquelas mãos agora na temperatura do seu rosto, levemente começaram afrouxar libertando os seus olhos. À medida que ele voltava a ver a luz do dia, o seu nervosismo aumentava. “Tinha quer ser ela”. Repetia ele consigo mesmo essa frase tal qual um mantra de meditação. 

Ao vislumbrar novamente a realidade a luz do dia, o medo, aquele companheiro que lhe acompanhou a vida toda e que fez com que ele afastasse, ou se afastasse de todas as pessoas que amou ao longo da vida, reapareceu das cinzas como a Fênix. Em silêncio, ele sentia a presença da pessoa ainda ali, mas ela também permanecia em silêncio. Certamente ela esperava que ele virasse  a cabeça e constatasse surpreso e feliz que de fato era aquela quem um dia ele amou. Mas passou-se um minuto, dois, três, nem ele, nem ela,  diziam uma palavra que fosse. Depois de mais ou menos cinco minutos, ele sente alguém se afastar vagarosamente até o ponto de sua presença não ser mais percebida. O seu pescoço não girou, suas mãos não se rebelaram em gesto algum, seus olhos, pobres coitados, lacrimejavam, mas de nada adiantava mais. Ela já tinha desaparecido no horizonte por trás dele.   

Naquela tarde, aquele homem escolheu viver com a certeza que a responsável por aquela brincadeira, era a morena que um dia ele amou. Ele viveria pra sempre sozinho, mas convicto do mundo que ele próprio criara pra si.

Nenhum comentário:

Postar um comentário