domingo, 15 de outubro de 2017

Diário de um escritor medíocre







DIA 1

Acordou às nove da manhã. Verificou que era sábado e que, por aquela razão, não teria que ir a faculdade. Pensando assim, ele refletiu uns cinco minutos se valia a pena tomar café, escovar os dentes, tomar banho, uma vez que não sentia fome nem iria ver ninguém. Ao menos não que estivesse nos seus planos. 

Ao abrir de fato os olhos, a realidade lhe cobriu de tudo que ele já conhecia bem. Era tudo tão igual que ele se irritou. Mas sem forças, manteve sua ira apenas mentalmente: “Um homem devia, pelo menos uma vez por semana, acordar em um ambiente que não conhecesse a disposição dos móveis, para assim, esbarrar com a canela na quina do criado mudo e aquela dor terrível lhe servir como aviso de que ele ainda estava vivo”. Ora, encontrar provas da própria existência numa rotina que todos os dias parecem segundas feiras não é simples. Como bem disse Sartre. 

Sentou-se na sua velha rede. Olhou seu quarto sem reboco. Verificou o telhado confeccionado de madeira mixuruca. A sua rede de dormir minúscula no meio daquele quarto enorme lhe pareceu uma cena tão solitária de dá dó. Ali, imaginou-se como se ele fosse uma câmera filmando aquela cena do alto: a tomada pegava um homem medíocre, de sonhos medíocres, sentado numa rede sem charme, e sem razão nenhuma pra levantar. 

Deitou-se novamente, acionou uma música no celular e tentou dormir mais uma vez. Desejou pular o final de semana, acordar somente na segunda, pois segunda feira sendo mesmo segunda feira era justo que fosse mesmo chata e sem graça. Não era justo que todos os dias fossem como eram. 

Não conseguindo voltar a dormir, ele levanta-se, escova os dentes, não toma café, pois sente que a fome lhe traria qualquer iluminação pra escrever um conto sublime, pois já fazia uma semana que não escrevia nada. As sensações do último texto já estavam se esvaindo e a abstinência travestida na descrença no seu talento já lhe corroia o estômago. Escrever para ele era simplesmente um vício como qualquer outro. Toma-se uma dose hoje, se alimenta daquela sensação por um tempo, mas depois surge novamente a necessidade de mais. E como ele nem lembrava mais o tema do seu último texto que ninguém leu, a sensação que ele não passava de um homem destinado a produzir carvão vegetal no quintal de casa o resto da vida, já lhe consumia aos poucos. Era preciso escrever. Mas como? Nada lhe ocorria. 

Após escovar os dentes, retornou pra rede, leu um pouco de Nelson Rodrigues: o escravo etíope. Ficou maravilhado com a vida como ela é. Refletiu que as pessoas hoje em dia estão sendo levadas a acreditarem numa vida fictícia, cheia de flores e balões o tempo todo, de modo que não mais aceitam a vida como ela é. Concluiu então que ele nunca seria lido mesmo. Não naquele novo mundo do positivismo barato e inútil. 

Num relance, lembrou-se que tinha que preparar um seminário de matemática pra apresentar na próxima quinta. Quis morrer. Fechou os olhos e desejou com força que ao reabri-los, em vez de mãos, ele veria belos cascos, umas patas malhadas, e tetas prontas para ordenha. Pelo menos, naquela nova forma, ele teria mais chances de ser abduzido pelos aliens. Como lhe custava às obrigações fúteis da vida. Se bem que o seminário era só quinta, ainda tinha muito tempo pra procrastinar. 

Após verificar com dor que não havia sido transformado numa vaca, foi obrigado a levantar pra ir até a cidade com a mãe pagar umas contas. Verificou o combustível da moto, se desse para a viagem, seria uma sorte tremenda. Sua mãe, ao verificar a sua cara de desesperança, diz com todas as letras que viviam tempos negros, época de vacas magras. Ele quis rir da ironia do destino, mas não encontrou motivos suficientes. 

Ao chegar ao posto de gasolina, foi taxativamente cobrado pelo dono, pois tinha lá uns vales que já datavam de quase dois meses. Quarenta reais no total. Ele tinha consciência do débito, mas não tinha pagado porque já fazia uns três meses que não via cor de dinheiro. Os trabalhos universitários que ele fazia a muito custo em troca de alguns trocados, aparentemente tinham ido repousar em pastos verdejantes, de modo que ele vivia realmente “tempos negros como dizia sua mãe”.

Embora aquele escritor medíocre estivesse acostumado às humilhações, aquela cobrança lhe doeu mais do que de costume. Talvez estivesse amadurecendo um pouco. Tomando vergonha na cara. No entanto, vergonha na cara não paga conta, então ele se obrigou a dizer a verdade sobre os fatos e recebeu de troco expressões de reprovação. Como adicional, ouviu a frase que mais parecia um mantra na sua vida: cara, tu é tão inteligente, porque não arranja um emprego? Ele respirou fundo e saiu. Não valia a pena tentar explicar. Seria como tentar explicar conceitos de arte para os analfabetos que confundiram uma apresentação no Museu de Arte Moderna de São Paulo com pedofilia. 

Naquele instante, ao ser cobrado, ele se viu na pele de Lucien de Rubempré e de Arturo Bandine, mas embora aquilo lhe fomentasse as humilhações, não se sentiu muito bem ao pensar que só estava trilhando o mesmo caminho de seus ídolos. Não como antes. Não havia nada de glamoroso na vergonha de ser cobrado. É! Talvez ele estivesse mesmo amadurecendo.

Não tendo realmente como quitar a dívida, e obrigando-se abastecer a moto mesmo assim, ele teve que engolir o pouco de orgulho que lhe restava, e pediu que completasse a nota de cinquenta reais no vale, prometendo que era a última vez e que pagaria no final do mês. Sabe-se lá se ele teria dinheiro para tanto, mas valeu-se da fé, já que era o que lhe restava. 

Diante daquela situação, ele se irritou profundamente ao notar-se aos 27 anos, um homem de barba, tendo que passar por aqueles perrengues unicamente por amor a sua arte. Quanto sacrifício faz por tua arte Samuel! Que coragem você possui! 

Depois de conseguir abastecer a moto, ele se direcionou até a casa lotérica pra pagar um boleto fazendo um favor pra seu irmão. Duzentos e vinte sete reais no total. Dos duzentos e cinquenta reais que o irmão lhe dera, restaria vinte e três, que ele poderia dá de AV nos vales do posto. Mas irritado, cansado de tudo, resolveu que iria tentar a sorte na Mega Sena. Ele tinha sofrido muitas humilhações aquele dia, talvez o universo lhe agraciasse com o prêmio pra que ele nunca mais passasse por tamanha ignomínia. Então convicto, fez três jogos no valor de dez e cinquenta, e o restante entregou a mãe pra completar a compra do almoço. 

Retornaram pra casa, e como era sábado, restava somente esperar o resultado da Mega sair quando chegasse a noite. 
Diante da náusea, das lembranças, do tempo, começou refletir sobre o que faria se ganhasse muito dinheiro de uma só vez, e chegou à conclusão que com certeza abandonaria o sonho de se tornar um grande escritor.
 Concluiu então que talvez não fosse uma boa ideia torna-se rico assim de repente. 
Porém pensou nas humilhações que já passara por conta da falta de dinheiro e resolveu deixar o universo decidir aquilo por ele. Embora lá no fundo, ele soubesse que não queria mesmo ganhar aquele prêmio. Não mesmo. 




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