quinta-feira, 6 de abril de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo III






Foi um alvoroço; também, pudera: avancei como uma louca sobre aquele homem e, mesmo que tentasse me conter, não conseguiria. Carina, como normalmente reagia em situações de estresse, ficou aturdida, paralisada, mas parecia me entender. Fui prontamente imobilizada por um guarda barrigudo, o que impediu, talvez, que eu arrancasse bem mais que um pedaço daquela orelha suculenta. Infelizmente, o rapaz bonito e bem vestido era filho do delegado e, claro, me julgou maluca. O delegado então, sem escolhas diante dos fatos e do depoimento do filho, me julgou incapaz de conviver em harmonia com a sociedade e, no ato, expediu uma ordem para que eu fosse mantida numa dessas instituições para malucos. Meu pai, sem saber como explicar nada, apenas sentou-se na cadeira em frente ao bebedouro e ficou contando os pingos de água que caiam devido a algum defeito na torneira. Não foi possível mais o reconhecimento dos suspeitos e talvez não precisasse...

Diante de tudo que havia acontecido nos últimos dias, eu já perdia as forças. Era como se eu fosse uma marionete dos efeitos daquela maldita noite e nada pudesse fazer; nem fugir, nem enfrentar, apenas deixar que o inevitável fosse me moldando a seu bel prazer. Eu tinha quase treze anos, meu mundo tinha desmoronado e a vida comum parecia ser impossível. Então, assim como desfaleci ao lado de Carina naquela noite, desabei no piso frio da delegacia e, sem forças, aceitei meu destino.

Algumas pessoas, depois que tomaram conhecimento da cena na delegacia, duvidaram se realmente nós tínhamos sido violentadas. Eu tive a “honra” de ouvir uma vizinha dizer: "quem sabe não foram elas mesmas que quiseram dar para eles? Foram se meter com desconhecidos, deu no que deu". Quis matá-la, mas me contive.

Passaram-se uns dias antes que eu fosse definitivamente para aquele lugar que todos meus conhecidos chamavam de Manicômio. A verdade é que, depois de um tempo, eu realmente queria ir. Minha mãe acreditava piamente que eu já não existia como antes, e alegava que tudo que eu fazia era culpa do meu problema. “Era tudo culpa do meu problema”! Nada me doía mais do que não ser normal. De tanto ouvir aquilo, eu estava a um passo de me convencer que era, realmente, uma louca. Quando vieram me buscar para a reclusão, até fiquei contente, por não precisar mais ver ninguém que desconfiasse da minha loucura. No manicômio, todos teriam certeza dela.

Eu passei quase dois anos reclusa, tempo que ninguém previra. O problema era que a psicóloga queria por força que eu escondesse alguma coisa, que houvesse algo mais sombrio em mim e que eu não revelara, a fim de proteger o meu cérebro de um trauma maior. Mas não havia. Eu relatava tudo o que me lembrava daquele dia, nos mínimos detalhes, mas ela nunca se dava por satisfeita. Sempre dizia: “procure se lembrar de algo, um detalhe que você ou sua irmã não queiram que seus pais saibam; algo que a tortura, que a remeta à culpa”. Mas não havia. Nós tínhamos entrado em um carro com estranhos, eles nos levaram àquele terreno baldio e fizeram coisas horríveis, e era só. Bem, o fato de ter-me envolvido em dezenove brigas com os outros internos durante esses dois anos, também não ajudou muito para que eu recebesse alta. Eu até gostava da solidão de lá e, desde que eu pudesse ouvir Bryan Adams, o lugar onde eu me estivesse era pouco importante.

Nesses quase dois anos, meu pai ia me visitar, mas não conversava muito. Minha mãe me levava bolos, balas, remédios e fazia questão de dizer que as brigas não eram culpa minha, mas, sim, do meu problema. O que mais me indignava, porém, era não poder provar que não era louca e, não conseguindo, a alternativa que me restava era agir como tal. Dei a todos o que todos queriam desde o início: - A certeza da minha loucura.

Eu não atrasei na escola por conta da casa de bobos (é como eu chamava); lá eu estudava e minhas notas eram altíssimas, pois minhas distrações eram as brigas e nem sempre eu podia forçar uma. Sem contar que eu não tive que encarar nenhum colega de turma me perguntado sobre aquele dia, nem as fofocas, nem ninguém. Presa ali, eu “tava” livre de todos os problemas normais da adolescência: não me apaixonava, não sofria. Embora não me sentisse feliz, pouco me importava. Eu, definitivamente, achei que aquele manicômio fosse o meu lugar. Conclui o ensino fundamental, e, em novembro de 1994, recebi alta: havia conseguido a proeza de passar três meses sem conseguir forçar nenhuma briga.

Ao retornar para casa, descobri que simplesmente odiava tudo; mas não era tudo o que me lembrasse do verão de 93, era tudo, tudo mesmo, naquela casa. Odiei o quadro da seleção brasileira na parede da sala, agora pintada de amarelo. Odiei o toca fitas que substituíra a vitrola que eu tanto amava. Repugnei o relógio estupidamente redondo, na parede. Odiei a toalha da mesa, os adesivos do Zé Carioca na geladeira que já ostentava uns vinte anos. Odiei o bolo de laranja servido em comemoração à minha chegada. A minha boneca, ridiculamente vestida de Paquita da Xuxa, me pareceu tão idiota que quis destroçá-la nos dentes. Quis queimar todas aquelas minhas coisas cor de rosa, do passado A coleção de gibis da turma da Mônica e a os discos do Bryan Adams eram as únicas coisas que eu ainda suportava ali.

Minha irmã, mesmo após dois anos, não conseguia olhar nos meus olhos, nem ultrapassava o limite de duas palavras numa conversa. Nada me agradaria mais que conversar com ela (não só sobre aquele fatídico dia), mas sobre tudo; ela parecia não compartilhar do mesmo sentimento. Um abraço apertado que fosse, mas nem isso.

Depois de alguns dias em casa, descobri que todos da cidade me chamavam de louca e que as crianças tinham mais medo de mim que do bicho papão. Era uma cidade pequena, as pessoas tinham elevado tanto o acontecido na delegacia que a minha fama beirava a de Hannibal Lecter. Ouvi estórias a respeito da noite de 93 e da minha estadia no manicômio, tão absurdas, que até me faziam rir. Corriam boatos de que eu tinha engravidado do agressor, e abortado pouco tempo depois. Diziam que no manicômio eu tinha comido uma mão inteira de uma interna, e muitas outras estórias. Se Carina conseguisse me encarar, se ela fosse a mesma de quando dividíamos o sorvete, de quando fazíamos tranças no cabelo uma da outra, certamente riríamos muito daqueles boatos insanos, mas ela não era mais a mesma. Estranheza senti também foi pelo fato de que, passados dois anos, numa cidade pequena como aquela, sequer terem encontrado pistas dos assassinos de Tati. 

Importava que, naquele momento, eu me encontrava livre das paredes do manicômio, e uma coisa era certa: saí bem mais maluca que quando entrei. Livre, eu olhava aquela pulseira do Palmeiras (não a perdi de vista um segundo sequer, desde que a encontrei), e vivia as típicas utopias de adolescentes: - Aqueles bandidos de merda iriam conhecer quem era Valquíria Deodato de Sousa! Sempre que pensava em vingança, uma lágrima de sangue era expelida dos meus grandes olhos de quase quinze anos.


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4 comentários:

  1. Ooooh meu Deus Bryan Adams eu simplesmente amooo! Essa história é muito comovente lendo imagino ela como num filme, o que seria bem interessante.

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    1. Também acho que daria um ótimo filme Eumacley.

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    2. Eu tô aqui louca, imaginando as cenas em minha cabeça! E sim, daria um ótimo filme drama, suspense 😍😍😍😭 à cada palavra um misto de ansiedade para chegar ao final!

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  2. dificil mesmo saber o que realmente aconteceu e o q ficçao.Mas ate agora to gostando da historia.

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