Mostrando postagens com marcador Crônicas/contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas/contos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Um sonhador de araque



Saiu às quatro da manhã rumo à praça central da cidade. Munido de uma vitrola, um cachecol vermelho, umas botas velhas, uma rosa, um sonho - e alguns poemas, ele resolveu que ia existir aquele ano. Ele carregava consigo sonhos maiores que os céus e não podia permitir que o mundo continuasse ignorando sua existência. Tinha certeza que havia nascido para grandes coisas e precisava mudar o curso da sua vida.

Ciente de sua insignificância,  tão logo chegou a praça, resolveu que sentiria primeiro a brisa fria da madrugada adentrando as narinas, pois era a única coisa que o acalmava. Sentou-se no velho banco, dispôs a vitrola entre as pernas e acendeu um cigarro. Passou a vista ao redor da praça, imaginando quantas pessoas daquela pequena cidade não se encontravam dormindo sem entender as possibilidades, ou mesmo sonhando em ser além do que eram. Imaginou que, talvez todos que ali viviam já tinham esgotado todas as possibilidades do que tinham de ser em suas pacatas existências. Mas ele não, ele tinha sonhos e lutaria por eles, até o fim, contra tudo e contra todos.

O dia já dava sinal de vida por sobre as nuvens e, mal clareasse todo o horizonte, ele iria dar curso a sua empreitada pra existir no novo ano. De manhã, ele acionaria tchaikovsky em sua vitrola, exibiria sua rosa no bolso esquerdo, e gritaria poemas de própria autoria para os transeuntes nas ruas. Com aquele ato, ele começaria a ser o poeta que sempre foi e o mundo teria que se envergar aos seus intentos, querendo ou não.

Enquanto esperava,  refletiu sobre as falácias dos habitantes da sua cidade. Pensou em cada fala que sairia da boca dos seus conterrâneos, um por um, pois conhecia todos.  Lucélia, filha do quitandeiro da esquina, com seus celulares e pele macia jamais exposta ao sol, sequer se prestaria o trabalho de proferir uma palavra que fosse sobre seu ato pra existir, pois estava cheia demais de si e distante da realidade de um poeta miserável como ele. Pensou no seu tio, trabalhador que jamais saíra do século passado, esbravejando pra sua esposa - aquele filho de Maria é um vagabundo sem eira nem beira, enlouquecera de vez. Eu sabia que ele jamais chegaria a lugar algum. Está destinado a miséria para o resto da vida, ele e toda a família.
Pensou nos seus amigos que se afastariam, pois não poderiam conviver com um louco sonhador. Pensou em Eliane, o amor da sua vida, que se também o amava, aguardava com poucas esperanças que ele se tornasse alguém para que pudesse cogitar a possibilidade de ficarem juntos. E  agora, por aquele caminho que ele escolhera, as chances iam-se por água a baixo, uma vez que os pais de Eliane, até mesmo ela, não suportaria as faláceas dos mexeriqueiros da cidade, de modo que, o casamento com o filho do dono da auto peças seria algo inevitável. Ele, coitado, estava destinado a perder os amores da sua vida, sabe-se lá Deus até quando.

Vivendo naquela minúscula cidade de interior em que ainda se deixava o leite nos alpendres, aquele pobre homem já havia perdido o amor da sua vida dezenove vezes. Não que isso fosse grande coisa, todos perdem o amor da sua vida tão cedo quanto as madrugadas - e nem por isso lhes são esgotadas todas as esperanças de felicidade; é que dezenove vezes era uma soma e tanto para alguém tão jovem. E também, Eliane era uma ilusão diferente. E mesmo,  lhe custaria muito conquistar o vigésimo amor da sua vida; não tinha certeza se ainda lhe restava forças para tanto.

À medida que o dia se tornava mais evidente, a sua vergonha também. O  receio dos vexames alheios e do que aconteceria com a sua já surrada imagem lhe clareava a mente e escurecia seus sonhos. E se ele não passasse de um zé ninguém que tinha como lenda pessoal catar conchas na praia para produzir calcário, assim como seu pai?  Parece que as madrugadas alimentam nossos sonhos com coragem, mas o dia, os enfraquecem.

Chegou o dia e, com ele, os primeiros viventes à praça. A claridade evidenciava a rosa no seu bolso esquerdo e antes que alguém visse, ele escondeu-a sorrateiramente. Suas botas, como eram as que sempre usava, não precisou tirá-las. Enrolou a vitrola no cachecol e foi-se pra casa como o merdinha de nada de sempre.  Santo de casa não obra milagre - pensou ele - um dia parto dessa cidade em que sou incompreendido e torno-me quem eu sou.
Na madrugada seguinte, ele retornou a praça com os mesmos apetrechos e a mesma coragem de todo dia. Uma hora ou outra ele tomaria coragem de enfrentar o dia e o céu seria o limite. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Coágulo






Dissolveu um comprimido de morfina e tomou de um só gole. Julgou que um comprimido não seria suficiente e tomou outro. Molhou uma camisa cinza escolhida aleatoriamente dentre tantas que possuía; sentou-se no seu banquinho revestido com couro sintético e respirou fundo. Passou mais uma vez a vista ao redor do seu quartinho minúsculo; verificou seu kit de primeiros socorros, averiguou a água quente, as toalhas e refletiu sobre atos de coragem. Passou mais uma olhadela na faca em processo de flambagem no seu fogão duas bocas. Torceu a camisa molhada, colocou-a entre os dentes - e munido de uma tesoura de jardineiro de médio porte, respirou fundo e fez a primeira tentativa, porém, não teve coragem. "Precisa ser feito" - pensou ele. Na segunda tentativa, a imagem dos tristes olhos azuis de Melinda em conjunto com a morfina não permitiram que ele percebesse a dor, então, decepou seu dedo mindinho. Feito isso, lacrimejando, estancou o sangramento como pôde e repetiu o mesmo ato com mais três dedos do pé esquerdo, lhe restando assim, apenas o dedão. Enfaixou o pé e guardou os dedos decepados em um pote no congelador.


---------------------------------- 


- Dezesseis anos, magricelo e estranho. Ninguém conseguia dizer nada além a respeito daquele rapaz branquicelo, cabelos sempre com gel, olhos penetrantes, coluna curvada e nariz minúsculo. Ele era muito peculiar; sempre caminhava em linha reta e o mais próximo das paredes que conseguia. Mantinha uma das mãos sempre fechada onde segurava um isqueiro Continental que ganhara de seu pai. Trajava sempre a mesma combinação de cores; cinza com branco, ou preto com cinza, nunca mudava a ordem. Mas apesar de suas excentricidades ele passava quase despercebido naquela cidade tão grande. 


Morava ele no centro da maior cidade do país em um quarto minúsculo que dividia com Gregório, um furão insensível. Todos os dias, às quinze e quarenta da tarde, ele vestia-se e saia em direção à uma viela por detrás de um prédio nem longe nem perto de onde residia. Lá, se dispunha entre caixas e barris de lixo e observava o apartamento de Melinda: moça de quatorze anos e olhos tristes. Sentado ali, ele presenciava a mesma cena todos os dias: uma mulher gorda trajando sempre vestidos coloridos penteava os longos e lisos cabelos de Melinda em frente a penteadeira do seu quarto; então às dezesseis e trinta em ponto, as duas saiam de braços dados pra um passeio no parque e retornavam sempre às dezessete e dez. Às dezessete e vinte, um senhor gordo, cabelos grisalhos e rosto redondo, estacionava seu Cadillac preto há duas quadras a frente e retornava a pé ao apartamento de Melinda. Depois de meia hora, com o casaco na mão e expelindo fumaça de um cigarro quase no fim, aquele homem asqueroso retornava pro seu Cadillac preto preocupado com qualquer coisa - e assim a vida seguia. 


Hoje, nada se alterara. Aquele jovem com um pé mutilado saíra mancando do seu apartamento na hora de sempre, se dispôs entre as latas de lixo e esperou que Melinda e sua companheira saíssem para o seu passeio diário. "Esta tarde, elas não retornarão!" - Pensou ele com convicção. Aguardou que as duas tomassem distância e com cautela de um garoto de dezesseis anos, subiu até o apartamento pela escada de emergência, pulou a janela, observou com repugnância os lençóis de cetim envolvendo o colchão de Melinda e direcionou-se a cozinha. Aquele dia, em vez de seu isqueiro, ele trazia na mão esquerda um pote de picles hermeticamente fechado. Sem titubear, pôs o pote na geladeira e saiu. Então, refez o seu caminho às pressas até seu apartamento. Ao chegar, ainda ofegante, tomou o telefone e ligou pra polícia. Em seguida, deitou-se em sua cama dura com uma sensação de dever cumprido e não pregou os olhos durante a noite toda.


Nos dias seguintes, sempre à primeira hora, ainda muito eufórico, ele corria até e banca e comprava o jornal do dia e retornava mancando pra casa. Folheava as páginas policiais e como não encontrava a noticia que esperava, a notícia que iria deixar todo o bairro, a cidade, talvez o país em choque, folheava os outros cadernos, duas, três, quatro vezes, mas nada que mencionasse o que ele esperava. Quatro dias passados, já em desespero, com o jornal amassado nas mãos, aquele jovem peculiar se depara horrorizado com a seguinte notícia no caderno de celebridades: 


"17 de Março de 1973”
“Ontem, em uma festa de Gala, o Juiz de direito Dr. Alvarenga Cortez, foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal.” 


Nisto, ele ouve batidas fortes na porta do seu apartamento e antes que fosse abrir, procurou, sem pressa, seu isqueiro no bolso direito, mas não encontrara...







No dia seguinte, Gregório, o furão insensível, anunciava nos classificados uma vaga pra colega de quarto no apartamento.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Cerâmica





Quarenta e quatros anos e não tinha sido nada fácil chegar até ali. Não mesmo. Criou cinco filhos, sofreu as maiores privações e quase sempre lhe faltou o essencial. Só nunca lhe faltou sonhos, afinal uma vida difícil não é pré-requisito pra que não se tenha sonhos. Certo que poucos e pequenos, tão pequenos que certa vez ela até tentara alimentar dois ou três sonhos de uma vez, mas sua realidade não lhe permitia.   

Desde que se casara aos dezessete anos, vivendo na mais profunda miséria, ela se conformou com a lama do presente se baseando nos louros do futuro que viria com sua aposentadoria por idade como trabalhadora rural. Na idade que se encontrava, fazendo as contas, ainda faltava onze anos. Ela dividia esses onze anos o máximo que podia no intuito de diminuir a  longa jornada.
- Calculava mentalmente: "Onze anos é quase a mesma coisa que dez, que dividido por dois são cinco, e como o tempo tá passando mais rápido que antigamente, sem que eu perceba, já estou aposentada. O tempo passa como o vento! Ora, a copa do mundo mal acabou e próximo ano já tem de novo." E só assim aquela mãe batalhadora conseguia sorrir uma vez ou outra.     

Seu sonho não era se aposentar, ela queria mesmo era possuir uma casa com piso de cerâmica e descansar sossegada ao fim de tarde sabendo que no dia seguinte teria com o quê alimentar sua família. Até então, ela não tivera uma só noite tranquila de sono, pois sempre tinha que matutar a noite inteira como conseguir alimento para o dia seguinte. Aquela mulher não tinha sequer o privilégio de pensar mais que um dia por vez, pois seria presunção demais. Ela também mantinha desejos menores, como manter um pote de vidro cheio de bolachas mais que um dia em cima de um balcão que construiria com o dinheiro da aposentadoria. Quando observava a vizinha comprando peixe do vendedor que passava gritando à porta - vizinha esta que já tinha alcançado a graça da aposentadoria - seus olhos brilhavam e ela sonhava: "um dia poderei guardar um pouco de dinheiro pra comprar um quilo de garajuba na minha porta também”.     

Ela tinha tudo planejado, nos seus mínimos detalhes: nos primeiros cinco anos de aposentadoria, ela iria ajudar os filhos, pois sentia que tinha uma dívida com cada um deles já que não pudera lhes proporcionar uma vida digna, tão pouco pôde construir um legado pra deixá-los de herança, então, todos tinham que vencer na vida sozinhos e, longe de sua casa, uma vez que seu interior não oferecia as oportunidades. Ela teve que suportar a dor de ver todos os filhos, antes mesmo de completarem a maioridade, saírem de casa em busca de melhores condições de vida. Dor esta que não conseguia esquecer. Sentia que falhara com os filhos, então dedicaria os primeiros cinco anos pra tentar ajudá-los na maneira do impossível. Feito isso, ela então poderia pensar em si, embora já encontrasse em idade avançada, porém, com sorte, talvez lhe restasse um pouco de vitalidade pra realizar os seus sonhos.  

Em uma tarde, ela liga a televisão no intuito de esquecer ao menos por uns instantes os dissabores da vida vendo suas novelas mexicanas, e por infortúnio lhe é imposta uma notícia que lhe tira o chão, o céu e todo o resto, em que o governo propõe alterações na aposentadoria - uma tal de reforma da previdência - e dentre as mudanças propostas, havia a alteração do tempo da aposentadoria por idade dos agricultores. Ela ficou horrorizada, pois com a reforma, tanto homens como mulheres só poderiam se aposentar com 65 anos. Nos seus sonhos, talvez até mesmo na vida, não cabia somar mais dez anos de espera. Ali, seu mundo desmoronou.   

Talvez na cidade grande aposentadoria signifique o fim de um ciclo, mas em regiões rurais significa tranquilidade, realização de um sonho que muitos esperam uma vida inteira pra conseguir. É quando pela primeira vez na vida, aqueles pobres coitados experimentam a tranquilidade da certeza de um dinheiro certo todo final de mês. Então tirem suas conclusões a respeito dessa reforma que eu entendo pouco, mas entendo da minha gente e sei as consequências de uma mudança como esta nos couros do povo sofrido de quem faço parte.  



domingo, 8 de janeiro de 2017

Amor de bar



A sua vida era mais ou menos. Ninguém o amava, mas também não odiava. Ele não incomodava, mas também não fazia a diferença.  Não era velho pra que aceitassem sua opinião, nem tão jovem pra que se justificasse sua inconsequência.  Ele não era bonito, mas também não era feio, de modo que ele não era bem afeiçoado pra ficar com mulheres formosas, e nem suficientemente feio pra não poder escolher, logo, estava condenado a solidão.  Ele não era uma coisa nem outra. Aquele homem se encontrava naquela maldita idade meio termo - vinte sete anos, e já não suportava mais aquela falta de vida que amargava. Eis que, numa tarde morna, tomando seu café morno, ele resolveu sair daquela vida morna.  

Marcando dezessete e cinquenta no seu relógio que não lhe custara muito nem pouco, decidiu sair do seu apartamento no intuito de arranjar uma briga de bar. Saiu convicto de  só voltar quando tivesse perdido pelo menos dois dentes e quebrado a clavícula, assim, ele não morreria, mas ficava suficientemente ferido pra ir parar no hospital, aonde lá, com uma certeza quase profética, ele seria atendido por uma auxiliar de enfermagem chamada Nágila ou Érica - e esta moça seria incumbida de o tirar daquela vida morna que levava.

Chegando ao bar, se dispôs no balcão entre dois homens corpulentos e pediu um Whisky duplo.
 - Com gelo?  - perguntou a garçonete. - Não, não! Cowboy! - respondeu ele com convicção.
A fim de demonstrar uma hombridade que não tinha, tomou a bebida de um só gole e se conteve pra que não notassem que seus olhos lacrimejavam devido o desconforto que lhe provocara aquele Whisky doze anos.  Aproveitando o fogo que o álcool lhe propiciara, com ou sem coragem, ele escarrou, coçou involuntariamente os testículos e cuspiu a bota do cara do lado. O homem barbudo, de aparência intolerante, fitou a bota suja e disse: - Tudo bem, sei que foi sem querer!

Nosso herói indignou-se, porém, relevou e  pediu outro whisky. A segunda dose já descera por sua garganta como uma criança no escorregador. Naquele momento, já cheio de coragem, escarrou novamente, coçou os testículos que nem sabia se conseguiria mantê-los até o final da noite e cuspiu a bota do outro cara do lado. A fim de não ser ignorado, fixou aquele olhar de faroeste sob sua vítima, como quem dizia, vem desgraçado. O rapaz, aparentemente um frequentador assíduo de academia, apenas olhou com uma serenidade de dá raiva e sequer proferiu palavra alguma, saiu e foi sentar-se ao conforto de uma mesa.  
Ele pensou desconsolado: "Ah! Não se consegue mais uma boa briga de bar como antigamente. Aonde fomos parar meu Deus? Será que todos os homens evoluiram pra esse estado deplorável e apático e a vida resume-se esse meio termo sem graça? Se for Deus, me leve daqui."

A Garçonete, morena de cabelos cor de noite, presenciando toda aquela cena enquanto lavava uns copos, de repente, desfarelou uma taça na parede do balcão e proferiu um grito que levaria um pelotão inteiro a loucura e, sem nenhuma razão, voou como uma gata no pescoço do nosso herói; embolaram-se no chão, quebraram duas mesas, arrancaram a saia de uma cliente, que imediatamente entrou na briga, o marido pra defendê-la pulou no meio do fuzuê, arrancou nosso caçador de briga do meio da bagunça e proferiu dois socos bem no meio dos seus olhos. Ele então, enfurecido, voou na garganta do marido indignado e levou mais dois socos, inconformado, levantou-se, levou mais dois socos e no chão ficou.

Em pouco tempo, a briga já se generalizava. Todos que se encontravam no bar,  mesmo sem entender nada, esbofeteava, chutava, mordia, gritava, virava mesas, quebrava copos, rasgava toalhas, jogava coxinhas nos curiosos que se aproximavam. O dono do bar veio da cozinha com um taco de beisebol e saiu distribuindo pancadas a esmo. Mal acabara de se levantar, nosso brigão levou duas tacadas no meio das pernas e gentilmente retornou ao seu sono...   Acordou no paredão da Beira mar, sabe Deus quantas horas depois...

 Ainda cheio de dor, abriu os olhos inebriado com o cheiro de fumaça de cigarro de má qualidade que saia da boca de uma morena linda sentada ao seu lado.  Sem entender joças do que estava acontecendo, sentou-se, e com as mãos trêmulas pediu uma tragada que prontamente lhe foi concedida.  A nicotina lhe clareara a mente e  fez com que ele notasse que aquela morena linda do seu lado trajava um uniforme de garçonete aos farrapos. Olharam-se e vislumbrando um ao outro aos pedaços, riram abertamente. Com aquele gesto, ele notou naquela mulher uma beleza que jamais vira, nem mesmo em Nágila ou Erica, auxiliar de enfermagem que cuidaria dos seus ferimentos se saísse vivo da sua briga de bar. Ali mesmo, envoltos por maresia, cheiro de cigarro e paixão, amaram-se como se o mundo nunca mais fosse girar.  

#cronica #literatura #critica





sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Lar doce Lar



Ele abria os olhos todos os dias às cinco da manhã. Sempre cheio de disposição, não havia necessidade que a mãe o chamasse aos gritos, ou que lhe jogasse água no rosto pra que ele acordasse de seus sonhos, embora quase sempre os céus tomasse para si  essa tarefa, mesmo não havendo necessidade. No levantar das pálpebras toda manhã, aquele menino invariavelmente apreciava a mesma cena; a massa cinzenta acima, as marcas de água, as goteiras, os transeuntes sob os primeiros raios de sol, ou sob as nuvens também cinzas. Seus ouvidos ouviam sempre os mesmos ruídos; as buzinas, os passos, os anseios, os gritos e indignações sem sentindo dos que com ele viviam naquele local.  Tudo se repetia, dia após dia, quase sem alterações.        

Aquele menino jamais soubera o que era sair ou voltar pra casa.  A sua casa tinha quilômetros e quilômetros e ele nem percebia. Ele
nascera naquele local e ali vivia há quase cinco anos, embora na sua imaginação de criança, não passasse de dois dias. Porém, ele convivia com todos os elementos daquele seu lar há tanto tempo que já até adquirira afeto por eles. Tinha uma caixa de papelão que ele apelidara de Fita, tinha uma ratazana grande e bem alimentada que ele chamara de Maria Juana. Vai saber por quê? Maria Juana, como que num gesto automático, sempre que o garotinho deixava sua caixa, ela se aproximava pra buscar restos de alimento. De certa forma, naquele mundo, todo carinho que ele conhecia era de Maria Juana, quando no meio da noite, não aguentando esperar que ele saísse,  ela vinha se enroscando em suas pernas sujas, ao certo com fome, e era nesse gesto, que aquele pobre menino experimentava vestígios de tranquilidade; naquele simplório e efêmero momento,  ele sentia a sensação de está protegido, de modo que se ajeitava em sua caixa como se estivesse em casa e, proferia aquele sorrisinho que, inconscientemente, toma forma em nosso rosto enquanto dormimos sob o olhar dos pais.  Certa vez Maria Juana até tivera filhotes, mas por alguma razão, o nosso garotinho, numa ira incompreensível, matou todos e os enterrou do outro lado da parede cinza, sem sentir remorso algum.     

Sabe, até que ele era feliz, mesmo morando embaixo do viaduto, carregava sempre um sorriso largo e uns olhos grandes cheios de vida.  Todos na rua o amavam; ele sempre tinha o que dizer e era de uma simpatia digna de ser explorada, e sua mãe bem sabia disso. Todos os dias, ele tinha que sair, mesmo que continuasse em casa, pra pedir coisas às pessoas que  carregavam consigo a singela graça de retornar pra algum lugar. Ele era carismático demais e sujo, de modo que ninguém conseguia continuar sua jornada sem que lhe agraciasse com algumas moedas. A mãe dele bem sabia disso.    

Certa vez, em um dia iluminado, ele acordara à hora de sempre, levara alguns tapas, pois ele se negou a sair pedindo coisas nas ruas sob o argumento que não era justo, pois ele mesmo jamais pudera comprar um brinquedo sequer com o dinheiro que conseguia.  Porém, não conseguindo resistir as pancadas, foi mesmo assim. Ao chegar ao local estratégico, ele vira um garoto bem vestido, com uniforme limpo e brasões importantes bordado no peito.  O menino se encontrava sozinho e parecia mais perdido que ele, nosso menino se aproximou e, do nada,  iniciou seu monólogo:    

- Como é sua casa? Deve ser bonita. Deve ter tapetes vermelhos como daquela loja grande do outro lado da rua. Sabe, eu também tenho uma casa muito grande, com tudo que eu preciso; quartos, paredes, teto e ratos.  Você gosta de ratos? Não deve gostar de ratos, os ricos acham  eles nojentos. Mas eles são bem legais e tem pelo macio.  Maria Juana é minha amiga, mas você não deve querer ouvir falar dela. O nosso herói tinha resposta pra todas as suas perguntas, logo, o garotinho limpo e cheiroso não tinha que falar nada e ele considerava isso o paraíso.    

- Quer conhecer a minha casa? Eu sei que quer! – O segurou pela mão e saiu em direção a sua casa.   - Que mão macia- pensou ele.                                                                                                    
Ao chegarem, começou ele mostrar ao garotinho limpo  o que era o seu lar:

- Aqui é a sala, tem esse sofá, não se pode sentar nele, mas minha mãe usa pra esconder coisas da polícia, não sei bem o quê. Ali tem o fogão, não é um grande fogão, eu sei,  e também serve mais pra esquentar o frio que sempre faz a noite, ninguém cozinha nele. A gente costuma ganhar a comida já pronta. Minha mãe não gosta das pessoas que dão comida, mas eu gosto.  Tá, é um tambor velho, eu sei.  
- Ali, é onde os homens dormem, tem alguns cobertores bem velhos, a gente sempre ganha cobertores novos, mas minha mãe sempre troca pela mesma coisa que esconde da polícia. - Seu pai esconde coisas da polícia? Não deve esconder. 

- Ali é onde minha mãe deveria dormir, fica do lado do meu quarto, mas ela quase nunca tá aqui, sempre sai com uns caras estranhos que aparecem.   

- Venha, vamos conhecer meu quarto. – Aonde vai? Você não tem poderes pra atravessar paredes, tem? Os ricos têm superpoderes? Devem ter. Você tem que me  seguir, aqui é cheio de paredes invisíveis, se você não prestar atenção acaba batendo em uma e pode se machucar.   

- Veja, aqui é meu quarto.  Esta é minha cama, eu chamo  ela de fita, é uma palavra que minha mãe sempre usa.  Tem teto e tudo e quando deito nela, pode até chover, que eu quase nem sinto. Eu me sinto tão protegido com cheiro de papelão. 
- Cuidado! Não levante ela, Maria Juana deve tá ai dentro e você pode se assustar. 

Mas Maria Juana não se encontrava lá. Os dois garotinhos então, entraram embaixo da caixa de fogão Esmaltec e lá brincaram por horas. Mas depois de um tempo, a polícia veio buscar o garotinho limpo. Após aquele dia, a sua mãe também jamais retornara, vai saber por quê!
Pensou ele conformado: "ela deve ter realmente muito que esconder da polícia."



     

    

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Texto publicado no Jornal O povo: Quem ama em demasia não deixa espaço pra ser amado



Veja no Jornal o Povo, clicando nesse link

Para ele, o amor, mais do que qualquer outra coisa, quase sempre fora um fardo. Um fardo que ele fora acumulando ao longo de anos amando exageradamente a tudo. Na medida em que o tempo passava, cada paixonite que sentia, acrescentava uns mil por cento no volume que ele carregava consigo a duras penas. De cada pessoa que amava, por amar demasiadamente, sempre sobrava um tanto de sentimentos que ele não conseguia descarregar, de modo que, mesmo sufocando a pessoa amada, ainda assim, era preciso que ele proferisse umas juras de amor aos ventos, ou que dissesse coisas que outrora pensara para a pessoa amada para desconhecidos nas ruas, apenas para que não se afogasse em seus próprios sentimentos.  

Quando ele, por qualquer que fosse o motivo, ficava sem ter a quem transferir o seu infinito amor, ficava insuportavelmente ridículo. Não podia ver uns olhos, uns cabelos ou qualquer que fosse a qualidade cuja de alguma forma era uma característica que um dia amara em alguém, que simplesmente, de uma única vez, depositava nessa pessoa todo aquele amor acumulado ao longo de anos amando em demasia a tudo e a todos a sua volta.
Deste modo, a pessoa privilegiada, com toda razão, em poucos segundos já sentia-se amada eternamente por ele e logo percebia que não necessitava amá-lo também para ser amada, assim, não necessitava gastar energia o conquistando de qualquer forma. 
A vida tem dessas de equilibrar tudo e, por julgar que seria sentimento demais envolvido e um gasto de energia excessivo, já que ele amava por dois por três, ou mais, a outra pessoa não precisava amá-lo também para obter aquelas vantagens de quem ama. 

Um dia, depois de amar tanto, depois de cometer todos os erros imagináveis proporcionados por àqueles que amam demais, ele mais uma vez, por pura casualidade, encontrou novamente uma pessoa que ele julgou ser amável. E de súbito, sem reflexões, como sempre acontece com quem ama em demasia, à amou tanto, que ele próprio não sentia-se bem com todo aquele sentimento que ele amargava a si e a todos a sua volta.

A pessoa amada também não suportou ser tão amada, ser bajulada, colocada em castelos de diamantes que nem de longe existiam na realidade.  Depois de ter cometido ignomínias ao montes, de ter sido ridículo sem perceber, de ter sido motivo de chacota de seus amigos e conhecidos, ele resolveu que era hora de por fim a todo aquele amor que o sufocava. 

Fechou-se ele em seu próprio mundo e, resolveu que não iria mais descarregar seu amor insuportável a ninguém. Era de fato um bom plano, porém, conheceu ele uma garota com grandes olhos negros e não conseguiu levar adiante o que pensara enquanto não amava ninguém. Era ele, sem sombra de dúvida, alguém que nascera para amar. Ser amado, bem, isso talvez das poucas vezes que conseguira tal proeza, não fora ele sábio suficiente para notar a tempo, só depois que já não mais adiantava nada. Ser amado, seu amor em demasia não lho permitia. Estava ele fadado a este duro destino. 

Numa noite, puxou o gatilho de sua pistola Walther disparando contra sua imagem no espelho. Aquela pistola era a única herança que seu pai lhe deixara. Ela cabia perfeitamente em sua mão e se encaixava como uma luva ao seu coração. Pensou ele que pela primeira vez na vida amava algo que por pura intensidade não se autoanulava. Aquela pistola era uma dama negra brilhante e charmosa, e como se não bastasse, dizia que o amava mais que tudo enquanto piscava de soslaio com seu brilho refletindo a luz da lua. 
Toda a vida até ali, ele não amara nada que não piscasse intencionalmente o olho enquanto sorria, embora não fosse aquele gesto direcionado a ele. Ele segurou aquela bela dama negra contra o coração e, lacrimejando, resolveu que iria destruir aquele cujo impedia de ser um idiota normal que amava pouco ou nada. 
Aquela pistola que ele amara, não diferente de todas as outras vezes que despejou seu amor sem economia a todos e aos ventos, o destruiu. Males de quem ama em demasia.




terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Cadeira de balanço




Sentou-se na velha cadeira de balanço de metal que já se encontrava há vinte e sete anos na varanda da sua casa. Olhou para os lados: “nada de novo”. Quer dizer, a dor que ele docemente amargava apenas na mão esquerda agora se transferira para a direita. Verificou-o que cada movimento que proferia fazia bem mais barulho que quando balançava levemente sua adorável cadeira de balanço.  Notou que não tinha mais pensamentos concisos, que não mais alimentava esperanças por mocinhas que ora ou outra passavam de bicicleta aos gritos na antiga estrada que dava para qualquer lugar que não mais era o seu lar. Notou que era um homem decrépito, cujo se decompunha com o tempo que passava. Ele percebeu, com dor, que  há muito não gastava aquele seu merecido tempo como deveria. Ele era um mísero pedaço de carne intragável até mesmo aos vermes que o espreitavam famintos e desavisados, coitados, que ele, quando finalmente fosse jogado aos abutres, não lhe restava mais nada de nutritivo para alimentar um corvo que fosse, pois tinha gasto todas as suas energias em desconstruir-se seguindo os desejos dos outros ao invés  de ter se construído seguindo os próprios desejos. “O homem tem que se construir!”  Ele olhou para a velha estrada e, suspirou,  juntamente com uma rajada de vento que levantou poeira e acrescentou mais umas partículas avermelhadas no velho mourão que se encontrava no canto da sua cerca a mais tempo que conseguia lembrar e, notou que, até ali, ele não tinha feito nada com o seu passado, e o seu presente se encontrava ali, resumindo-se a uma velha cadeira de balanço e que o seu futuro não ia ser muito diferente.

 A vida toda, sem exceções, ele simplesmente seguira a ordem da vida, aquela vida medíocre condicionada aos poucos estudos, um emprego público mais medíocre ainda, uma esposa burra que jamais lhe dera ao menos a alegria de um filho. Ora, pois se ele havia conscientemente falhado em tudo, era justo que não falhasse também com sua natureza instintiva e já tivesse tido um filho aquela altura da vida. Mas nem isso! A vida toda, ele não passara de um funcionário publico sem chances de subir de cargo e, conciliar a isso, um agricultor sem destreza alguma, pois se tinha exercido até ali alguma atividade na lavoura não era de sua livre escolha.

 Ele não sabia lavrar um punhado de milho que fosse com maestria, como sempre sonhara o  seu pai cujo lhe deixou alguns hectares de terra. Ele odiava falar sobre as cifras que precisaria gastar para arar a terra a ser logo semeada. Odiava ter que  ir aos dias de folga a cidade para comprar ração  para as galinhas que sua esposa, aparentemente,  amava mais do que a ele próprio. Odiava ter que fofocar com vizinhos mexeriqueiros sobre as mulheres separadas que davam para qualquer transeunte que passasse na estrada.   Odiava ter que suportar os “baba ovo” do prefeito da sua pequena cidade, que só falavam maravilhas do corrupto que já se encontrava há mais de vinte sete anos no poder só para lhes garantir mais um ano de trabalho mole na máquina pública do município. A verdade é que ele odiava ser obrigado a ser um deles! Ele verificou que odiava quase tudo na sua vida medíocre! Que tudo que ele havia feito e conquistado até então não tinha sido para si e, sim, para agradar aqueles que o rodeava.  

 E passados mais alguns redemoinhos de poeira sem direção previsível frente a sua varanda,  ele acabou verificando também, já enfurecido, que até mesmo aquele gemido da sua velha cadeira de balanço cujos tanto o acalmara em outros tempos, bem mais que os grunhidos que proferia sua esposa nos poucos segundos de furnicamento que tinham de ano em ano, que aquilo também, como tudo na sua vida, era ridículo.  E o fato dele se conformar com tudo, o tornava mais ridículo ainda.  Eis que, mesmo contra todos os pensamentos que o assolava, ele decidiu levantar-se daquela moleza, daquela monotonia e fazer algo por si mesmo: foi até o pé de manga, tomou uma belíssima manga nas mãos, verificou o quanto o adubo ali posto aquele ano tinha feito bem ao seu antigo e bem cuidado pomar, tomou uma faca e, com maestria, cortou a manga e a devorou vorazmente, pois tinha fome e, depois de satisfeito, retornou a sua velha cadeira de balanço, que ao certo ainda suportaria suas reflexões, embora resmungando, por mais uns vinte sete anos...    

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A máquina de realizar sonhos absurdos (Uma lição de vida)






Era ele um sonhador. Tinha consigo todos os sonhos do mundo, porém, carregava em conjunto com os sonhos a mazela da sensatez comum e, julgava todos os seus desejos absurdos irrealizáveis. Até que, ainda enquanto criança, lhe veio à mente o sonho mais absurdo de todos: se convenceu que poderia construir uma máquina de realizar sonhos absurdos para que ninguém mais tivesse a sensação horrível de ter aqueles que eram seus sonhos mais bonitos apenas como uma utopia. Tinha ele, por qualquer que fosse a razão, a ideia de que aquela máquina poderia ser criada a base de algodão doce. Vai saber por quê! Porém, sabia que precisava, antes de realizar este sonho, seguir a ordem que rege a vida para que os demais não o julgassem um louco. O tempo foi passando, ele jamais confidenciou os seus planos pra ninguém. Não julgou necessário, seria só motivo de chacota daqueles sensatos e sem graça.  

Cresceu, estudou, arranjou empregos, entretanto, manteve todos os seus sonhos vivos em sua mente. Casou-se, teve uma filha e, um belo dia, cansado da sensatez comum, resolveu que iria realizar um de seus sonhos absurdos, embora aquele não fosse um tão absurdo assim, já que ele tinha o sonho mais maluco de todos que era criar a sua máquina de desejos. 
    
Enquanto jovem, ele colocou na cabeça que poderia ir até a Irlanda de asa delta com a sua namorada, atual esposa, pois seria lindo e romântico. Sabia ele que não seria possível, no entanto, ante o absurdo, resolveu dar o seu jeito. Juntou todas as suas economias e fora até a Irlanda com sua família. A viagem fora linda, como tinha que ser. Na volta, trouxera num saquinho um punhado de areia da terra que sempre tivera o sonho de ir de asa delta. Já em casa, iniciou o seu sonho; construiu nos arredores uma estradinha de terra escura, levantou muros de pedra ao redor; acrescentou o punhado de terra que trouxera; comprou uma ovelha que jamais tosquiaria; plantou grama em volta, girassóis e o céu azul, bem, o céu azul já era uma dádiva pronta. Construiu sua própria asa delta e depois de tudo pronto, com a ajuda de cabos, ele voou com sua esposa até a sua Irlanda. Foi sublime!

Depois deste episódio, ele não mais teve vergonha dos seus sonhos embora absurdos, pois se tinha o mais louco de todos, quaisquer outro, lhe era justo. Que sortudo! Então ele decidiu que realizaria qualquer sonho que lhe surgisse a mente antes de construir a sua máquina de realizar sonhos absurdos.
Enquanto criança, não diferente de todos, ele tinha o sonho de cavar um túnel até o Japão. Jamais realizara, pois seria uma empreitada absurda. No entanto, no presente, tudo lhe era possível.  
Eis que iniciou a realizar: construiu um túnel com muita segurança que dava para um Japão que ele mesmo construiria mais tarde. Comprou uma réplica de Samurai, construiu casinhas típicas, arranjou cerejeiras, embora fosse artificiais, ele já tinha os girassóis, não importava muito o restante. Então ele construiu o seu próprio Japão no quintal de casa. Um dia, brincando com sua filha, ela o indagou se seria possível cavar até o Japão. Ela então, diferente da resposta que ele tivera quando fizera a mesma pergunta enquanto criança, não só obteve resposta positiva, como ouvira de seu pai que o próprio já tinha cavado um túnel até lá. Perguntou se ela queria ir também, ela feliz e empolgada responde que sim! E foram de mãos dadas até o seu Japão. A filha ficou encantada com tanta beleza, era um mundo novo, era uma felicidade indescritível.  

Desde então, nosso herói passou a viver de fato! A vida para ele tinha muita graça! Não se importava com que os outros diziam, pois o que importava era a sua felicidade. E não se julgava ele próprio um louco, pois louco se tornaria quando iniciasse a construir a sua máquina de realizar sonhos absurdos á base de algodão doce.  

Enquanto jovem e amante inveterado, ele, por inúmeras vezes, dissera a sua amada que se fosse possível laçaria a lua e a presentearia com esse singelo regalo. Obviamente não seria possível. Porém, diante de sua realidade, ele não via empecilhos para realizar este sonho.
Por meses, nosso herói estudou as fases da lua, o eixo de inclinação da terra, as estações do ano; pesquisou sobre iluminação, comprou espelhos, cortou-os, modulou-os; construiu estruturas de madeira maleáveis aos mais diversos ângulos. Enfim, o que lhe viesse à mente para realizar o seu sonho. 
E de espelho em espelho, minuciosamente dispostos ao seu desejo, ele conseguiu trazer a lua para dentro de casa. 
Numa bela noite de lua cheia, ele chamou sua linda esposa, que sempre lhe apoiava em tudo, pois no fundo fora aquele detalhe que fizera com que ele a amasse mais que tudo, apagou as luzes, sentaram-se diante da mais linda lua do universo bem na sua sala e depois de um longo silêncio e suspiros, ele disse: “tá vendo essa lua aqui dentro da nossa casa, eu fui buscar só pra te dá”    

Espaço pra um noite de amor. 

Eis que o tempo foi passando, ele jamais deixou de realizar seus sonhos por mais absurdos que fossem, mesmo ante a ideia da impossibilidade, pois ainda tinha que realizar o sonho que seria de fato uma loucura: criar a sua máquina de realizar sonhos absurdos a base de algodão doce. 
Porém, em reflexão, ele se deu conta que os únicos sonhos que são, de fato, absurdos, são aqueles que nos surgem à mente, e de cara, a nossa fraqueza faz com que desistimos deles. Sonhos absurdos são aqueles pelos quais não lutamos. Então percebeu que não precisava construir máquina alguma, pois ele próprio era uma máquina de realizar sonhos absurdos. 
Depois disto, notou ele que, felizes são aqueles que não fogem da sua própria imaginação.

Compre o ebook de poemas e ajude esse sonhador de araque clicando no link abaixo: