sábado, 14 de janeiro de 2017

Coágulo






Dissolveu um comprimido de morfina e tomou de um só gole. Julgou que um comprimido não seria suficiente e tomou outro. Molhou uma camisa cinza escolhida aleatoriamente dentre tantas que possuía; sentou-se no seu banquinho revestido com couro sintético e respirou fundo. Passou mais uma vez a vista ao redor do seu quartinho minúsculo; verificou seu kit de primeiros socorros, averiguou a água quente, as toalhas e refletiu sobre atos de coragem. Passou mais uma olhadela na faca em processo de flambagem no seu fogão duas bocas. Torceu a camisa molhada, colocou-a entre os dentes - e munido de uma tesoura de jardineiro de médio porte, respirou fundo e fez a primeira tentativa, porém, não teve coragem. "Precisa ser feito" - pensou ele. Na segunda tentativa, a imagem dos tristes olhos azuis de Melinda em conjunto com a morfina não permitiu que ele percebesse a dor, então, decepou seu dedo mindinho. Feito isso, lacrimejando, estancou o sangramento como pôde e repetiu o mesmo ato com mais três dedos do pé esquerdo, lhe restando assim, apenas o dedão. Enfaixou o pé e guardou os dedos decepados em um pote no congelador.


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- Dezesseis anos, magricelo e estranho. Ninguém conseguia dizer nada além a respeito daquele rapaz branquicelo, cabelos sempre com gel, olhos penetrantes, coluna curvada e nariz minúsculo. Ele era muito peculiar; sempre caminhava em linha reta e o mais próximo das paredes que conseguia. Mantinha uma das mãos sempre fechada onde segurava um isqueiro Continental que ganhara de seu pai. Trajava sempre a mesma combinação de cores; cinza com branco, ou preto com cinza, nunca mudava a ordem. Mas apesar de suas excentricidades ele passava quase despercebido naquela cidade tão grande. 


Morava ele no centro da maior cidade do país em um quarto minúsculo que dividia com Gregório, um furão insensível. Todos os dias, às quinze e quarenta da tarde, ele vestia-se e saia em direção à uma viela por detrás de um prédio nem longe nem perto de onde residia. Lá, se dispunha entre caixas e barris de lixo e observava o apartamento de Melinda: moça de quatorze anos e olhos tristes. Sentado ali, ele presenciava a mesma cena todos os dias: uma mulher gorda trajando sempre vestidos coloridos penteava os longos e lisos cabelos de Melinda em frente a penteadeira do seu quarto; então às dezesseis e trinta em ponto, as duas saiam de braços dados pra um passeio no parque e retornavam sempre às dezessete e dez. Às dezessete e vinte, um senhor gordo, cabelos grisalhos e rosto redondo, estacionava seu Cadillac preto há duas quadras a frente e retornava a pé ao apartamento de Melinda. Depois de meia hora, com o casaco na mão e expelindo fumaça de um cigarro quase no fim, aquele homem asqueroso retornava pro seu Cadillac preto preocupado com qualquer coisa - e assim a vida seguia. 


Hoje, nada se alterara. Aquele jovem com um pé mutilado saíra mancando do seu apartamento na hora de sempre, se dispôs entre as latas de lixo e esperou que Melinda e sua companheira saíssem para o seu passeio diário. "Esta tarde, elas não retornarão!" - Pensou ele com convicção. Aguardou que as duas tomassem distância e com cautela de um garoto de dezesseis anos, subiu até o apartamento pela escada de emergência, pulou a janela, observou com repugnância os lençóis de cetim envolvendo o colchão de Melinda e direcionou-se a cozinha. Aquele dia, em vez de seu isqueiro, ele trazia na mão esquerda um pote de picles hermeticamente fechado. Sem titubear, pôs o pote na geladeira e saiu. Então, refez o seu caminho às pressas até seu apartamento. Ao chegar, ainda ofegante, tomou o telefone e ligou pra polícia. Em seguida, deitou-se em sua cama dura com uma sensação de dever cumprido e não pregou os olhos durante a noite toda.


Nos dias seguintes, sempre à primeira hora, ainda muito eufórico, ele corria até e banca e comprava o jornal do dia e retornava mancando pra casa. Folheava as páginas policiais e como não encontrava a noticia que esperava, a notícia que iria deixar todo o bairro, a cidade, talvez o país em choque, folheava os outros cadernos, duas, três, quatro vezes, mas nada que mencionasse o que ele esperava. Quatro dias passados, já em desespero, com o jornal amassado nas mãos, aquele jovem peculiar se depara horrorizado com a seguinte notícia no caderno de celebridades: 


"17 de Março de 1973”
“Ontem, em uma festa de Gala, o Juiz de direito Dr. Alvarenga Cortez, foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal.” 


Nisto, ele ouve batidas fortes na porta do seu apartamento e antes que fosse abrir, procurou, sem pressa, seu isqueiro no bolso direito, mas não encontrara...







No dia seguinte, Gregório, o furão insensível, anunciava nos classificados uma vaga pra colega de quarto no apartamento.

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