quarta-feira, 23 de agosto de 2017

"Síndrome" do Aspirante a escritor ou "síndrome" de Raskolnikov



Refiro-me a escritor neste texto, mas acredito que suas lições valem pra todas expressões artísticas


A arte da escrita, por ser uma atividade que requer apenas uma linguagem constituída de símbolos e objetos pra grafar o que se deseja dizer, é amplamente democrática e qualquer um dotado de inteligência pode desenvolvê-la facilmente, logo, o único pré-requisito pra ser escritor é acreditar que o é. 
Sendo assim, milhões e milhões todos os dias se descobrem escritores e começam produzir "exageradamente" a sua literatura que julgam sublime. É, sublime, pois a primeira certeza que surge na mente loroteira do aspirante a escritor é que ele vai se tornar, ou melhor, já é, "o maior literato que esse país, quiçá o mundo, jamais viu ou verá novamente, só precisa, porém, que ele seja visto e reconhecido - e dada a sua genialidade, será tão logo o sol surja no horizonte." (Entre aspas porque eu sei que você já repetiu essas palavras um milhão de vezes pra si mesmo, assim com eu). 
Chamo essa soberba de Síndrome do Aspirante a escritor ou síndrome de Raskolnikov. Raskolnikov é a personagem principal do romance Crime e castigo de Dostoiévski. Ele acredita ser dotado de uma inteligência única, então se coloca a cima de tudo e de todos, inclusive da lei, pois sendo ele um gênio da literatura, segundo suas convicções, não precisa se submeter aos mesmos deveres das pessoas comuns. Balzac retrata também essa síndrome de forma brilhante no maravilhoso romance as ilusões perdidas. Dostoiévski, Balzac e outros autores, embora tenham descrito a síndrome como uma característica de seus personagens, só passaram veracidade porque viveram intensamente ela.

Todo escritor, invariavelmente, carrega essa síndrome, quer negue, quer não. Senão, repense se de fato é um escritor. Essa síndrome, de início, em vez de levá-lo as alturas, se torna um empecilho, embora necessário, pois enquanto se acredita que é um gênio, único no mundo, qualquer bobagem escrita, aos seus olhos cegos pela certeza, lhe parece pérolas. Muitos passam a vida toda sem conseguir transpôr essa primeira barreira. 
Por sorte, somente você acredita ser um gênio, os demais não, então o feedback esperado; a fama, os autógrafos, o sucesso econômico, não surgem com os primeiros raios de sol e você vai tomando aquele primeiro choque de realidade que Fernando Sabino tanto fala em O encontro marcado: "Um dia você descobre que é só talentosinho." "Embora essa frase se aplique somente aos escritores comuns, não a você, que é melhor que Kafka e John Fante juntos." 
Esse primeiro choque, embora não cure a síndrome, faz com que você reformule os seus sonhos, principalmente em relação ao tempo das realizações.
Em termos simples, a síndrome poderia se descrita inicialmente como uma paixão, que com o tempo e as decepções, vai se transformando em um amor maduro e paciente.

Bem, com a bigorna da realidade lhe colocando no chão, você passa a entender que precisa ler muito mais do que escreve. E se for sábio, compreende que precisa beber de boas fontes se quiser melhorar sua escrita. Embora ainda inebriado pela soberba, lhe ocorre também que precisa rever sua gramática, ampliar seu vocabulário, que o mundo, uma hora ou outra notará a sua genialidade. Então, depois de rever seu trabalho e melhorar bastante sua escrita, ainda acreditando ser um prodígio da literatura, divulga mais e mais o que escreve, mas apesar do feedback positivo, vem o segundo choque de realidade: você compreende que precisa de muito trabalho e tempo pra ser visto, bem como pra que seus escritos atinjam o nível de obra de arte, como bem disse Fernando Sabino: "você escreve, mas pra atingir o nível de obra de arte, são outros quinhentos." São poucos que chegam nesta fase, muitos desistem no caminho ou se conformam com o "talentosinho". "A verdade é que, muitos são só talentosinhos mesmo. Mas você não! Você é um grande escritor! Ou não? Talvez você não passe de um merdinha de nada mesmo." 

Com as dúvidas, vem a fase última, que são as descrenças. Você passa a questionar se realmente vale a pena o suor gasto a troco dos louros do futuro que podem nunca vir acontecer. Passa a refletir se realmente tem talento, ou se vale mesmo a pena os sacrifícios, as privações, a falta de dinheiro, de filhos, de pessoas, tudo em prol de um sonho descabido cujo somente você acredita. 
Eis que aqui, a síndrome pode tomar três caminhos: ou desaparece de vez causando a morte do escritor que há na pessoa. Ou se mantém e ela continua acreditando nos seus sonhos, embora de forma mais sensata; sabendo que nunca é fácil, que vai precisar de muita garra e coragem pra conseguir um lugar ao sol. E por fim, a síndrome pode entrar no período assintomático, então, sem seus sintomas essenciais, você larga tudo e vai construir coisas reais. Então, depois de muito tempo, já aposentado, velho e decrépito, a síndrome retorna mais forte, tal qual o vírus do sarampo. Porém, muitas vezes, já não resta tempo nem energia para a luta.
Nesta última, surge a certeza mais cruel de todas, como bem disse Fernando Pessoa: "Quem escreverá a história do que poderia ter sido o irreparável do meu passado. Este é o cadáver."

Portanto, lute com unhas e dentes! No fim, todo mundo compreende que desde o início devia ter visto dragões e não moinhos de vento. 













4 comentários:

  1. Parabéns pelo texto. É um convite à reflexão.

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  2. Muito bom seu texto. Bela sacada com relação a Raskolnikov, de Dostoiévski. Concordo plenamente que isso acontece em todas as áreas mesmo. Mas temos que continuar a lutar pelos nossos sonhos. Parabéns, sua reflexão é incrível.

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  3. Obrigado por partilhar! As obras de arte não são tão inacessíveis nesse contexto precário. Eu acredito que por vezes podem estar numa vírgula ou qualquer outro sinal! Mais difícil é encontrá-las se expondo em galerias.

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