domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo último




Eu tinha dezesseis anos, era bela, fora dos padrões ridículos, mas tinha meus encantos. Tinha cabelos longos e lisos e um sorriso de dá inveja a qualquer uma. Eu gostava da Malhação, do Zezé de Camargo, Mamonas assassinas e das Patricinhas de Bervely Hills, como tantas da minha idade. Eu passeava aos fins de tarde com minha irmã Carina nas ruas de uma nova cidade, de um novo mundo, de um novo começo e conversávamos sobre as mais insanas banalidades e sorríamos como nunca. Lá, cada dia realmente era o novo dia, sem remoer o passado dolorido. O bom da vida é que quase sempre existem chances de recomeçar. O passado pra gente era passado, sequer tocávamos mais no assunto. E como a vida real se difere de contos de fadas, as pessoas da nossa antiga cidade se mantiveram nas lembranças por um tempo, mas depois desapareceram. As pessoas se vão, é natural. A gente se afasta, ainda que sem querer, e vai aos poucos se esquecendo das pessoas que surgem, marcam ou não a nossa história - e naturalmente se vão. Mas novas pessoas surgem e o ciclo recomeça. Isso nunca vai mudar. Pessoas eternas só permanecem nos corações de tolas que amam demasiadamente como eu. Mas quem disse que eu preciso revelar que ainda me lembro; que tenho saudade, que queria mais um abraço, ouvir a voz mais uma vez, que queria apreciar os olhos, sentir o “cheiro de gente” dessas pessoas. Quem disse que a gente precisa dizer que queríamos só mais uma vez assistir o clipe November Rain coladinha com certas pessoas. Quem disse? Mas essa parte da minha história só cabe felicidade e a saudade sem a possibilidade de que vamos nos ver amanhã machuca demais, então é melhor não pensar nisso. E mesmo, há ainda muita água pra correr. Minha família mudou de cidade, pois queríamos e precisávamos de um novo começo longe daqueles que conheciam a trágica noite de 93 e os acontecimentos posteriores, mas a cidade ainda estava lá, eu poderia voltar em outra época. 

A verdade é que eu era bem feliz naquele novo mundo. Eu corria sem ser tarjada de louca. Eu gritava aos quatros ventos próximo do lago e o que as pessoas enxergavam era somente felicidade - e era só o que eu sentia. O mundo exigia de mim somente que eu levasse uma vida normal, com preocupações realmente difíceis como que batom combina melhor que o top rosa e os enfeites de cabelo violetas. Naquela nova cidade eu respirava o sol com tanta intensidade sem me preocupar com os demônios psicológicos do passado. Os selvagens com seus tambores ainda surgiam em meus sonhos de vez e sempre, mas eles apenas dançavam “Girls Just wanna have fun” comigo, e eles eram tão coloridos por fora como minha alma por dentro. Tinha dias que a saudade batia, que eu lembrava de Tati, mas tinha dias que eu queria só viver as cores da realidade, amando intensamente a Deus e o mundo. A única coisa que eu mantinha do passado era o gosto pelo Bryan Adams. É que o timbre doce da voz dele me proporcionava uma calmaria que só vivenciando pra entender. Please forgive-me! 

NOTA FINAL 

Nunca saberemos o que eu inventei e o que de fato fora real nessa história que contei nessas poucas páginas... Quem sabe eu contei essa história do meu jeito apenas no intuito de superar o verão de 1993 de forma mais artística. Quem vai saber? E também quem precisa de realidade quando se tem uma imaginação fértil. Viver de realidade é muito chato. O mundo é um lugar escuro e o coração é uma caixa de fósforo com palitos finitos, não podemos desperdiçá-los, nem podemos economizá-los, pois resfriam com o tempo.  

VALQUÍRIA DEODATO DE SOUSA 



45 comentários:

  1. Adorei seu texto, uma história de superação lindíssima, apesar de muitos tormentos . obrigada por me permitir essa leitura
    !

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    1. Obrigado Cristiane. Suas palavras me emocionaram.

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  2. Iolanda Nascimento15 de abril de 2017 21:29

    Que história,que história emocionante!Enquanto lia ia imaginando as cenas e o sofrimento desta menina,que é a história real de muitas jovens. Me fez lembrar também o filme A DoCE VINGANÇA . AGRADECIDA por compartilhar essa história de SUPERAÇÃO

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    1. Obrigado por seu comentário Iolanda. Boa referência, gosto desse filme. Essa história tem muito da realidade! Minha realidade. Fico muito feliz que gostou

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  3. Simplesmente emocionante, que guerreira!
    Vc está de parabéns
    Muito obrigada

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    1. Que bom que se identificou com a história. Eu quis passar a ideia de uma mulher forte e capaz de lutar contra tudo.

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  4. Não me lembro onde descobri essa publicação, mas não me arrependi de le-la. Me senti na história e não consegui parar de ler até acabar, me emocionei. Obrigada por compartilhar, isso nós ajuda a prestar mais atenção em nossos filhos, nos aproximar deles para alerta-los e ajuda-los diante dos problemas que passam no seu dia a dia.

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    1. Eu fico muito feliz com seu comentário - e ainda constando que essa minha história tem uma função social, é mais incrível ainda. Eu espero que essa narrativa chegue a mais e mais mulheres. Abraços

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  5. Achei muito bom o texto, aquele tipo de obra que você não para enquanto não acaba. Parabéns :) . Eu não sei se não prestei atenção ou sou desligado mesmo.. queria saber quem ajudou ela no manicomio a preparar a sala e a deixar a tesoura. Você pode responder? Vou ficar curioso enquanto não descobrir...

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    1. Eu deixei a lacuna pros leitores decidirem, se era o espírito de Tati - aí no fundo ninguém ajudou ela, ou pode ter sido uma enfermeira que não aparece na história. Porque no início tem alguém que lhe abriga com o guarda chuva durante uma tempestade, então eu deixo você decidir, se é uma enfermeira, se é o espírito de Tati ou você leitor, que de certa forma acompanhou ela o tempo todo durante seu drama. Muito obrigado por ter lido até o final.

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  6. Maravilhosa a história... eu até pensei na possibilidade da Tati não ter morrido quando alguém ajuda ela na clínica, isso me deixou na dúvida. Mas a sua explicação foi perfeita e prefiro acreditar que eu tenha ajudado...

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    1. Obrigado Jennifer, conto com você pra compartilhar, assim a gente consegue editora pra publicar a nossa história, uma vez que vivemos juntos essa história.

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  7. Maravilhosa essa história, também não lembro onde a descobri, mas adorei ter descoberto. Uma leitura incrível que te faz ler tudo até ver o fim. Um tema muito atual, espero que muitas pessoas possam ler e à partir disso superar os traumas e ter uma alma colorida como a da Val.
    Obrigada pela história!

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    1. Eu que agradeço por ter lido. Divulgue para os amigos s2

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  8. Genial! Cativante e... e me deixou com uma dúvida, quem a ajudou foi a mãe da Tati?
    Você está de parabéns. Amei sua estória!

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    1. Leia os comentários acima, respondem sua pergunta. Gosto do seu nome Alêssa.

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  9. Sabe aquelas historias que nos prende desde o início? Pois é, a sua é uma dessas. Parabéns, simplesmente perfeita!

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  10. Muito boa! História Fantástica! Me prendeu desde o início, e o final foi surpreendente! Mas seria bom que você dissesse a pessoa que ajudou ela no manicômio, eu sei você deixou ao nosso critério, mas gostaria de uma opinião sua. Mas a história está maravilhosa, parabéns mesmo!

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    1. E se tiver sido você a ajudá-la. Sei que teve muitas vezes que em momentos de tempestade você quis ter um guarda chuva, uma palavra de consolo pra amenizar a dor dela. Minha opinião a esse respeito, eu prefiro pensar, gosto da ideia de que o espírito de Tati usou alguém de dentro do manicômio pra que ajudasse ela.

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  11. Que história maravilhosa, Samuel. Parabéns! Não consegui parar de ler enquanto não terminei. Você tem outras histórias publicadas?

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    1. Não assim completa, tenho outros contos curtos postados aqui no blog. Tenho livros escritos, mas tô divulgando esse trabalho pra ganhar visibilidade e conseguir uma editora pra publicar tanto essa quanto outros. Indique aos amigos, ajuda muito!

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  12. Parabéns!!!!
    Amei a história/estória.
    Me perdeu do começo ao final.
    Você tem redes socias?
    Pode ser que sua história seja ficção, mas sabemos de muitos casos parecidos com o da Val.
    Que muitos filhinhos de papai comentem esse tipo de atrocidades e fica escondidos atrás dos cargos dos pais, enquanto a vítima fica levando suas marcas para o resto da vida.
    Obrigada Samuel por um texto bem escrito.

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    1. Oi Zipora, tenho sim. Link do Meu Facebook: https://www.facebook.com/samuel.ivanii
      Link da minha página: https://www.facebook.com/oescritordefabulas/

      E concordo com você, tenho recebido inclusive, muitos depoimentos de pessoas que viveram a mesma situação e conseguiram reunir forças pra continuar lendo esse conto.

      Muito obrigado!

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  13. Simplesmente maravilhoso. Devorei do início ao fim. Muito marcante. Parabéns Samuel Ivani

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Obrigado Grasielle, você é encantadora!

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  15. Adorei a historia...prendeu minha atenção do começo ao fim....Parabéns pela historia!

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  16. Parabéns pelo conto. Fiquei muito curioso pra saber quem era a pessoa que sempre ajudou a Val, no dia da chuva e tbm no manicômio.

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    1. Há teorias que dizem que pode ter sido o espírito de Tati, ou mesmo uma enfermeira do Manicômio. Eu gosto de pensar que foi você, o leitor, e eu que escrevi. Sei que muitas vezes você quis ter ajudado Val na sua jornada, então, opte por tê-la ajudado. Eu me sinto muito bem quando penso assim! Obrigado!

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  17. Cara, meus parabéns, eu confesso que não sou muito de ler mas a sua história foi muito muito boa. Mas eu fiquei muito em dúvida se você fez essa história ou é uma história real meio que não ficou muito claro pra mim no primeiro capítulo e na nota final.

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    1. Isso quer dizer que conquistei um novo leitor. Isso é muito bom! Cara, boa parte é real, mas também uma boa parte eu inventei. Eu deixo ao seu critério, escolha se é real ou não. Só tenha em mente que me inspirei numa história bem real.

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  18. Parabéns!! Maravilhosa, me prendeu do começo ao fim, eu prefiro acreditar que foi sim o espirito da Tati a ajuda-la.

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  19. Parabéns pela história!Emocionante.Começei a ler era 19horas, deixei de sair para terminar ,mas valeu a pena.Amo ler...Sou grata.

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    1. Fico feliz Lucia por ter te proporcionado uma boa leitura!

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  20. Parabéns pelo conto!História envolvente e muito interessante. Li de uma vez só, pq não deu pra parar. Kkkk

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  21. Muito boa a história, obrigada por compartilhar conosco!

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  22. Este comentário foi removido pelo autor.

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  23. Enfim...cheguei ao final da história. Bastante triste, emocionante e essa menina apesar dos conflitos emocionais, erros e acertos é uma guerreira.

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  24. Samuel!
    Gostei muito da história. Val conseguiu atrair minha atenção, porque você foi muito hábil no uso das palavras. O sofrimento da garota é real e dá para viver com ela as horas de tristeza e alegria. Ela, com certeza, fez o que muitas mulheres, na mesma situação, gostariam de fazer com seus agressores. Confesso que fiquei na torcida para que ela conseguisse dar cabo do infeliz. O que me deixou intrigada é que ele não estava sozinho. Os outros deveriam ter sido punidos. Não apareceram durante a história da vingança. Ela focou no filho do delegado, mas e os outros? Quem abusou dela? Entende? Gostaria de saber qual o fim deles.
    Parabéns, mais uma vez, pela história.

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    1. Os outros aparecem sim, você leu de forma muito rápida ou pulou capítulos, porque Carina conta pra ela o que de fato aconteceu aquela noite. A não ser que Carina tenha pretendido proteger os outros dois. Mas fica a cargo de você refletir sobre essa teoria. Eu lavo minhas mãos!

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