sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O JARDINEIRO



Planando o último metro quadrado de areia branca por entre as rosas, aquele jardineiro magricelo de cabelos lisos iria passar duas horas apreciando o trabalho que desenvolvera com maestria no intuito de atingir a certeza que não era um fracassado total.

Após concluir e começar vislumbrar o fruto do seu labor, ele constata que a areia branca trazida diretamente da Grécia por seus senhores para preencher os espaços entre as roseiras e os arbustos, em prática, lhe pareceu uma ideia mais acertada do que ele jamais supusera, pois o verde escuro das folhas, as rosas vermelhas, em contraste com a areia cintilante sob o sol das nove da manhã, era de uma beleza magnânima.

A jardinagem era o que ainda lhe proporcionava um pouco de prazer uma vez que a pintura, a sua verdadeira paixão, a sua vida, era uma atividade em que ele ainda não se julgava suficientemente bom pra que fosse ovacionado como ele sempre desejou.
Ele tinha como certo que um dia, quando ele finalmente pintasse o seu primeiro e único quadro até o fim, o mundo se curvaria aos seus pés. 
Embora ele não fizesse ideia do que iria preencher aquela tela, tinha como certo que não iria encontrar inspiração na racionalidade, ou no mundo que os homens criaram no intuito de enganarem a si mesmos que estão no controle dos seus destinos. 
Desde os onze anos, ele adquirira a obsessão pela busca da perfeição; o único quadro que concluiria, seria pintado tal qual Deus pintou o Jardim do Éden e, se assim não fosse, morreria tentando. E naquela jornada pra atingir a divindade, aquele exímio jardineiro jamais manteve vivo por mais de cinco minutos nenhum dos muitos quadros que pintara ao longo da vida, pois sempre que se aproximava de concluir uma obra, julgava humana e racional demais, logo, não era o que ele almejava. Ele sabia que era preciso ser menos gente pra atingir a divindade e, por conseguinte, pintar o quadro perfeito; o quadro que proporcionasse a quem tivesse a honra de apreciá-lo o mais puro terror em conjunto com o contentamento proporcionado pela beleza da dor selvagem e instintiva. 

Uma vez que ele ansiava pela sincronia com a mão de Deus, qualquer coisa que ele julgasse humano não era de seu interesse. Não mantinha relação alguma com seus semelhantes; nunca proferia uma palavra sequer ou olhava diretamente nos olhos de quem quer que fosse. 
Os patrões somente lhe direcionavam a palavra para alguma ordem sem graça, que ele nunca seguia a risca, pois tinha o seu jeito próprio de dar vida aquele jardim, que era se privando da sua própria. 
Desde que assumira o jardim, tudo ali era de uma beleza nunca vista em outro lugar no mundo, de modo que os patrões, mesmo notando a excentricidade daquele jardineiro, jamais o demitiriam, pois se habituaram aos elogios de seus conhecidos com relação ao seu jardim cheio de vida. Nem mesmo o fato da figura daquele homem magricelo chocar os poucos que o viam, embora raramente alguém se deparasse com ele, e se acontecesse, ele fugia como o diabo da cruz, não era motivo para demiti-lo. Ou mesmo seus hábitos pouco ortodoxos cujos assustavam até mesmo a mente mais perturbada, não lhe eram motivo pra que dispensassem seus serviços, embora suas verdadeiras loucuras, ele tomasse precauções pra que ninguém visse. 

Certa vez, no auge do frio do inverno, aquele fantasma do jardim, resolveu cavar um buraco na terra úmida de mais ou menos sessenta centímetros por detrás de uns arbustos na parte dos fundos da mansão. Ao concluir, se despiu, deitou seu corpo flácido e trêmulo de frio naquele que ele julgava não um buraco, uma cova, mas um portal para uni-lo em definitivo com a natureza instintiva, se enterrou com as próprias mãos deixando somente a boca e as narinas para captação de ar - e lá ficou por dois dias inteiros sem que ninguém o encontrasse, somente bebendo o orvalho que lhe caia a boca. 
Há que se lembrar de que tal empreitada quase o matou. Aquele ato era mais uma de suas tentativas pra atingir a inspiração pra “esculpir” o seu quadro divino. Ele tinha como certo que sob a terra úmida, vivendo junto, e, como um verme, ele se uniria a natureza selvagem e se desvencilharia de todo e qualquer sentimento humano, logo, ele poderia pincelar o seu quadro da mais pura beleza selvagem, como o seu Deus Pollock. 

Depois de chegar ao seu limite, de ouvir o pulsar da terra, de sentir que sua carne e a terra haviam se tornado somente um, ele reuniu o que lhe restava de forças, levantou-se evitando ao máximo que a terra que lhe pregara no corpo voltasse ao seu lugar justo, se direcionou até seu minúsculo quarto nos fundos do jardim, e lá, começou pintar o que seria o seu quadro destituído de qualquer humanidade. Mas depois de duas horas pintando, ele retorna a si, olha para a tela e se depara com a figura de um homem com uma corda no pescoço se equilibrando nas pontas dos pés sobre uma maçã pobre para evitar a morte. Os olhos daquele homem extramente assustados devido o medo da morte, provocaram pena ao jardineiro, sentimento humano menos nobre que ele já conhecera, então irritado, ele simplesmente se joga em cima do cavalete e rasga no dente aquele quadro mixuruca. 

Até aquela manhã, aquele homem sem vida já havia desenvolvido as mais excêntricas estratégias de modo a inspirar-se para seu único quadro, mas todas haviam se demonstrado inúteis. 
Certa vez, ele chegou a cortar os pelos dos cílios a fim de não mais dormir no intuito de despertar pelo sofrimento o seus instintos mais selvagens. Mas depois de seis dias, ele somente conseguiu pintar uma moça espanhola pastoreando ratos no alto de uma colina. Não era a pintura sublime que ele buscava, nem era pintada com a arte que ele almejava alcançar, então, mais uma vez se desfez do quadro. 

Mas naquela manhã, havia qualquer coisa de diferente, embora ele não soubesse o que era. Apreciando a areia branca, ele refletia sobre o fato que talvez jamais conseguisse atingir seus objetivos. Tais ideias começaram reverberar no que ainda lhe restava de humano e sentindo-se um fracassado de merda, ele profere um grito tão alto e diferente que arrepiaria até os mais indiferentes corações. Em um ato intuitivo, descalça suas botas que já ostentavam quatorze anos, e gritando tudo que ele havia guardado para si a vida toda, começa correr sobre a areia branca deixando suas pegadas como evidência do seu descontentamento com tudo. 
Ele corria feito um lobo faminto em direção a uma presa que sabia que jamais alcançaria. Até que, em meio às roseiras, bem no centro do jardim, um espinho lhe perfura o braço, fazendo com que o sangue caísse na areia branca. Sem se dá conta da dor, aquele homem corria deixando uma trilha vermelha por onde passava. Quando ele finalmente sente o líquido quente deslizando por seu braço, ele para, ignora o ferimento, olha para trás e se depara com os rastros de sangue. Ali ele entendeu que tudo que ele passara durante a vida, toda dor, resignação, conspiravam pra que ele chegasse aquele momento. Finalmente tudo fazia sentindo. 
Sem pensar, ele se despe e torna a correr totalmente nu, mas agora em direção as roseiras. Ele se lança aos espinhos como um touro feroz aos chifres de um rival. A sua pele frágil, jamais exposta ao sol, é dilacerada pelos espinhos derramando a sua vida por onde passava. Ele corria e a trilha deixada formava linhas instintivas totalmente destituídas de vontade. Apreciando o seu próprio espetáculo, em euforia, ele ignorava a dor, os homens e a vida. 

Os cortes deixados pelos espinhos das rosas não eram suficientes para que ele finalmente concluísse o seu quadro magnânimo, então ele lança-se aos cactos se provocando assim cortes mais profundos mas que pouco importavam, já que lhe rendiam a tinta que precisava. Ele era senhor de si mesmo, pintando o quadro da sua vida, o quadro que qualquer um que visse, apesar da dor, da aversão ao sangue, não conteria o contentamento em apreciar tão divino espetáculo. 

De repente, ele para em frente a uma gota do seu próprio sangue, acocora-se, e nota uma formiga numa tentativa infrutífera de se livrar do sangue coagulado, mas já perdia as forças. Eis que, pela primeira vez na vida, aquele jardineiro excêntrico ensaia um sorriso. Após a formiga perder totalmente os movimentos, ele se levanta e continua... Ele não podia parar! Finalmente iria concluir a pintura da sua vida. Logo, sem escolhas, ele se lançou mais e mais vezes sobre os cactos. E continuava a correr sem direção. Até que, depois de mais de uma hora, ele para, gira em torno de si mesmo bem no centro do jardim, e vislumbrando finalmente a sua obra perfeita, desfalece de braços abertos na areia grega agora vermelha. Ali deitado, ofegante, ele conclui que aquela pintura, o quadro da sua vida, só poderia ter sido pintada por alguém caminhando no vale da sombra da morte. Eis que, ele profere o último suspiro ciente de que tinha finalmente atingido seu objetivo maior. 

Alguns segundos depois, um rouxinol pousa compassadamente no ombro sem vida daquele Jardineiro embebido em seu próprio sangue, e inicia cantarolar o canto dos deuses, conferindo som aquela pintura que já tinha cor, aroma e dor. 





Samuel Ivani

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