quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Não temos escritores de qualidade que cativem os leitores


O entrave da absorção e venda da produção literária brasileira não se encontra na falta de produção, e sim, na falta de qualidade da ficção nacional, em que a maioria dos autores buscam apenas imitar os Best Sellers estrangeiros, o que tira a credibilidade e também diminui a confiança do leitor nos escritores nacionais, em vez  de buscar construir uma identidade própria. Há assim, uma larga produção de imitações e não temos um autor vivo que reflita uma identidade nacional, que seja original, que confie no bordão de Leon Tolstoi: “fale de sua aldeia e estará falando do mundo”. 

Há também um grande problema, não só na literatura, na arte em geral, que é a falta de confiança na inteligência do leitor ou consumidor de cultura brasileira. Podemos comprovar isso nos seriados brasileiros de comédia em que uma piada, mesmo sendo chula e clichê, além de ser contada, precisa ser explicada duas três vezes. Isso ocorre porque os produtores desdenham da inteligência dos telespectadores e por receio explicam ou alongam a piada até que ela se torne sem graça. Balzac dizia: "até a mais celebre ideia, se repetida muitas vezes se torna ridícula." O mesmo não ocorre em seriados americanos, em que não há a mesma preocupação, então usam e abusam do sarcasmo e metáforas, ou seja, confiam na bagagem cultural de quem assiste e deixam a cargo do consumidor a compreensão. 

Na literatura, também falta essa compreensão, ai não é um problema tipicamente brasileiro, é da literatura contemporânea denominada comercial em geral, em que os livros apenas contam um enredo, sem aquelas camadas subentendidas, metáforas, sarcasmo, ironia, essencial para um livro de qualidade. E não há nada mais prazeroso do que uma descoberta por si só proporcionada por uma mensagem subentendida pensada ou não pelo autor; é o que nos impulsiona a querer ler mais, a consumir mais daquele produto que nos proporcionou aquela sensação. Essas não são características de livros complexos. Dostoiévski é um escritor incrível, e não tem nada de complexo, apenas sua literatura nos leva a refletir sobre a vida.

Nos falta escrever livros que sejam universais e atemporais, em que atinja todos os públicos.
Sim, é perfeitamente possível, pois não é a época em que é ambientado a narrativa que classifica um livro como atemporal, é o estilo; aquele estilo oriundo do mais profundo recôndito da mente do homem, onde ele é menos racional, que é onde se encontra a chave para a perfeição. Ai não importa a época em que se leia, ele vai ser sempre atual, pois não é o tempo, é a mente do homem que se encontra no livro. E acredite, não mudamos desde a racionalidade, as ideias evoluem de pessoa para pessoa, de geração para geração, mas a mente do homem continua a mesma. 

Eu sonho um dia em que esse país e os demais da América latina ostentem novamente uma leva de escritores como nos anos setenta no chamado "bum latino americano". Isso só depende de escritores com coragem, ousadia e confiança. E em vez de ficarmos lamentando por sermos um país que não lê ou que só lê autores estrangeiros, tentemos produzir uma literatura que seja suficientemente boa pra cativar novos leitores. Pode ser que essa minha luta seja como a de Dom Quixote, mas assim como ele, eu vou morrer com a certeza de que tentei criar o meu "melhor dos mundos". 
 Assim como um time de futebol ganha um grande número de torcedores em uma fase campeã, novos leitores surgem fascinados com grandes obras produzidas por escritores de qualidade.

É só um sonho mesmo...