segunda-feira, 3 de abril de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo X 10

Leia o capítulo onze clicando nesse link





- Não há nada pra ser explicado. Agora você sim, tem que me explicar o que está fazendo aqui, matando aula. 

- Na verdade estamos no mesmo barco. O que eu quero que me explique é porque que esses caras com quem você chegou se parecem muito com os mesmos que nos levaram pra dá uma volta de carro naquela noite. Se forem eles, nós temos muito que conversar. 

- Você tá certa, são eles mesmo. 

- Então, como você continua se encontrando com eles depois de tanto tempo e simplesmente não fez nada pra que a morte de Tati não ficasse impune. Isso é o que eu não compreendo. 

- É muito simples! Eles também não querem se envolver e criar desavenças com o filho do delegado, pois segundo me contaram o delegado não costuma brincar em serviço; ele simplesmente acaba com qualquer um que se meta no seu caminho. Se a gente for investigar, ou mesmo tramar qualquer coisa pra pôr o desgraçado na cadeia, nós é que somos mortos. 

- Mas eles continuam amigos do filho do delegado? Refiro-me a eles, porque não consigo cogitar a possibilidade de você continuar vendo aquele monstro sem lhe arrancar um braço, uma perna ou outro membro mais útil. 

- Claro que não. Depois do acontecido, simplesmente nós nos afastamos, embora sejamos constantemente ameaçados, mas fora isso nós não tivemos mais contato. 

- Bem que o desgraçado podia mandar bilhetes, assim, teríamos mais uma prova contra ele, não é mesmo? 

- É, mas ele é esperto, só me contata pessoalmente quando me encontra, ou por bilhetes confeccionados com recortes de letras de revista. É um tanto infantil, mas funciona. 

Bem, minha irmãzinha, eu não tenho mais dúvidas. Vamos pra casa que hoje estou me sentindo leve como uma pluma. 

Vejo que tá mais feliz mesmo. Pode me contar o que você realmente veio fazer na praça em horário de aula? Hum! Será que arranjou alguém?! Conte-me tudo, não me esconda nada. 

- Ora, não seja maliciosa, eu não conheci ninguém. – Disse seriamente, ciente que realmente não tinha realmente conhecido ninguém de especial. Dirigimo-nos pra casa sem pressa, pois ainda tínhamos um pouco de tempo. Apesar de eu ter dito que não me restava dúvidas, eu ainda fiquei com uma pulga atrás da orelha. Não era possível que eles aceitassem aquilo de braços cruzados, a não ser que não se importassem com Tati, ou realmente temiam a morte. E quem não teme? 

Quando cheguei a casa, eu não pensava mais no filho do delegado, não pensava em nada, só naquele singelo elogio daquele garoto na praça. Será que eu realmente possuía algum encanto? Depois de mais de dois anos, eu resolvi me olhar no espelho, até então eu não tinha motivos. Quando me deparei com minha imagem de frente o espelho, vi uma garota de quinze anos com aparência um pouco surrada; meus grandes olhos grandes pareciam assustados, meus lábios sem brilho, minhas bochechas pareciam sem vida, as sobrancelhas por fazer, mas aquele furinho no queixo ainda se encontrava lá, deixando meu rosto todo proporcional. Do nada, me olhando, eu resolvi sorrir, fazia mais de dois anos que eu não via o meu próprio sorriso e que sorriso lindo eu tinha! Mexi no cabelo, sorri novamente, virei o rosto e me olhei de soslaio e notei que, sim, eu tinha meus encantos. Depois de meia hora em frente o espelho, experimentado batons, sombras, brilhos, blush, feliz como nunca, eu deitei, abracei o travesseiro e sorri ainda que não encontrasse motivos aparentes. Por sorte, minha mãe apesar de eu não usar maquiagem alguma, tinha fé que um dia eu mudaria de ideia e sempre me comprava um coisa ou outra. 

No dia seguinte, acordei cheia de vida, tomei banho meia hora antes do horário costumeiro, sentei em frente à penteadeira, me maquiei, penteei os cabelos, coloquei uma tiara rosa, uma blusa que delineava meu corpo e guardei a do uniforme na mochila; olhei meu bumbum, era um bumbum razoável, e segura como nunca, sai do quarto outra pessoa. Minha mãe ao ver minha nova figura, simplesmente me abraçou e chorou; certamente ela pensou que me tinha de volta. Carina, esta estranhou e me beliscou, fazendo um escândalo, gritando: 

- Quem é ele? Pode me contar! Val tá namorando! Val tá namorando! Deu-me vontade de voltar pro quarto e tirar tudo, mas me contive. 

 Repetindo a caminhada de sempre até a escola, as pessoas quase não me reconheciam e me olhavam diferente, senão, era eu que me sentia diferente, então o mundo era diferente também. Já na escola, no intervalo, direcionando-me para o refeitório carregando a merenda, eu ouço novamente: “Sai que é tua Taffarel!” Minha memória logo entrou em ação, então ciente de que outra bola viria em minha direção, joguei a merenda para o alto no intuito de daquela vez agarrar a bola e evitar um desmaio. Mas era só a voz, a bola não veio! No entanto, toda aquela comida quente já estava em direção o sol e iria se espalhar na cabeça de alguém uma vez que o corredor estava lotado. Por ironia do destino, a agraciada com aquele prato na cabeça fora a mesma magricela de outrora. Ela, ainda com ressentimentos passados, adicionados os novos, com toda razão voou pra cima de mim com uma ira justa e nos bolamos pelo pátio sem controle. Fazia tempo que eu não brigava e aquilo me fez um bem danado. Depois de um tempo, com os mesmos aplausos e gritos de incentivos, eu fui arrancada do fuzuê por aquele mesmo garoto da praça. Depois que me recompus, ele pediu desculpas, pois sabia que tudo tinha sido culpa dele e foi acudir a pobre garota magricela e então, foi quando eu levei a verdadeira pancada, ele a beijou na boca - e pronto, aquele silêncio quando se constata um fato novo e indesejável tomou conta de mim. Fui pra diretoria mais sequer ouvi o que me diziam, sei que o garoto assumiu a culpa e acabou que levei uma advertência, mas foi só...

Leia o capitulo onze clicando nesse link

Nenhum comentário:

Postar um comentário