segunda-feira, 3 de abril de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capitulo XI




Durante aquela tarde, com o meu mundo colorido aos pedaços, me restava à escuridão. Se era um monstro que eles queriam, era um monstro que eles teriam. O amor, maquiagem, tiaras, aparência, eram coisas banais demais que não cabiam no meu mundo extenso. Eu era maior que aquilo, o meu universo era maior que aquilo. 

Antes que terminasse a aula, fugi do colégio, voltei pra casa, no caminho, roubei uma lata de espray de pichação numa loja chinfrim, fui pega, mas antes que me apanhassem de verdade, consegui escapar. Passei na farmácia, vi aquela loira linda no balcão com aquele barrigão que já devia está de uns cinco meses e aquele sorriso constante que eu não entendia de onde ela tirava tanta alegria pra sorrir o tempo todo daquele jeito. Li compassadamente o nome no seu jaleco: "Amanda Afrânio", mesmo sobrenome que compunha o letreiro grande na entrada da farmácia. Chegando ao meu doce lar, não me importei com os questionamentos de minha mãe sobre o porquê que eu tinha fugido da escola; aparentemente alguém já tinha ligado avisando do meu sumiço, fui direto pro quarto e me tranquei com uma raiva daquelas que te põe as mais absurdas certezas no coração. Tinha a mais plena convicção que nunca mais me engraçaria por idiota nenhum, nem jamais me envergaria ao sentimento humano que fosse a não ser o ódio. Daquele momento em diante, só meus planos, só eu e mais ninguém importaria. 

Tirei todas aquelas cores da personagem que eu havia sido aquele dia e voltei a mim. Munida de uma caixa de papelão e uma tesoura eu comecei cortar aquela caixa como se estivesse ferindo a pele de um inimigo; talvez o momento exigisse que eu a destroçasse enquanto gritava os impropérios mais absurdos pra ordem que rege a vida, mas não, eu cortei com destreza e fiz quatro letras grandes de papelão e as observei ciente de que estava fazendo a coisa certa. O momento exigia que eu pintasse aquelas letras de preto, cor da minha alma, mas optei por pintar de quatros cores diferentes e alegres e as enfeitei com corações e estrelas brilhantes. Minha mãe batia na porta do quarto, mas eu não ouvia, não tinha tempo pra conversas banais. Procurei uma fita que tínhamos gravado uns dias antes de Tati morrer cuja continha a voz dela nítida e pouco suave falando besteiras: "Como eu amo ele! Carlos é o amor da minha vida." Eu nunca tinha buscado ouvir aquela fita, talvez porque não tivesse preparada para aquela nova descoberta. Se Carlos era o paquera de Tati, muita coisa se explicava. Eu poderia ali, ter me abalado, mas eu era uma rocha, nada me tiraria dos meus objetivos, aquela nova informação só me deixara com mais raiva e com mais coragem. Eu podia ter ido perguntar a Carina porque ela escondeu aquela informação de mim, mas eu tava cansada de tentar entendê-la. Eu editei a fita, coloquei uma música de ninar como plano de fundo; deu-me um trabalho monstruoso, mas utilizando dois gravadores eu consegui finalmente, afinal motivação eu tinha.  

A noite se ia sem que eu percebesse, porém, o tempo era uma grandeza que pra mim naquele momento era indiferente, como todo o restante do mundo. Ainda tinha muito por fazer. A mochila de Tati ainda se encontrava no meu quarto, lá, no mesmo canto embaixo de umas coisas que eu não usava mais. Eu tinha escondido aquela mochila por alguma razão que desconhecia e o propósito me foi revelado àquela noite por qualquer entidade mágica do universo. Quando abri a mochila, vi aquelas roupinhas que Tati sempre usava já muito surradas pelo tempo, mas não tinha espaço no meu novo mundo pra comoções. Com o próprio tecido das roupas de Tati, eu confeccionei uma réplica; uma roupinha de boneca e vesti na minha boneca preferida.

Com tudo pronto, sai do quarto, avisei a todos que eu me encontrava muito bem. Jantei, porque minha mãe exigia que eu o fizesse, tomei banho, porque o mundo exigia que eu o fizesse, fiz todas as coisas normais porque o universo exigia que eu o fizesse, mas não que fosse de minha boa vontade. Então, retornei pro quarto. O restante da noite eu passei penteando os cabelos da minha boneca preferida enquanto cantarolava a cantiga de ninar que eu tinha colocado na fita em conjunto com a voz de Tati. Nenhuma lágrima caiu dos meus olhos e se caíssem, seriam de sangue. Ah, se mente vazia era a oficina do diabo, a minha era o inferno e queimava como um vulcão. Se o pecado me assolava e o amor sadio não me era possível, alguém, quiçá o mundo, com o devido merecimento, iria conhecer quem era Valquíria Deodato de Sousa. 

 Vi, por entre as frestas do telhado o dia amanhecendo; senti com honra a última brisa da madrugada e apreciei cada raio de sol que entrava no meu quarto como se fosse combustível pra minha alma sombria. Mal clareou totalmente o dia, eu tomei minha mochila, coloquei meu pequeno toca fitas dentro junto com as letras coloridas e a boneca que era uma réplica da minha querida Tati e sai antes que todos acordassem. Na rua, eu não olhava pra qualquer direção a não ser pra frente, e cada passo que eu dava batia os pés com tanta força e convicção no chão, que mesmo no asfalto, parecia que minhas pegadas ficavam ali, evidenciando as minhas ações naquele dia claro e sombrio. 

Meu primeiro destino era a farmácia onde trabalhava aquela loira linda, por sorte, a drogaria Afrânio ainda se encontrava fechada. Com auxílios de barbantes,  eu escrevi com as quatro letras coloridas de baixo pra cima o nome TATI no poste do outro lado da rua, cujo ficava bem em frente ao portão da farmácia. Após concluir, corri em direção ao meu próximo destino: a casa de Carlos Salgado. Chegando lá, pichei no muro do terreno baldio em frente a sua casa o seguinte: 17 FB 1993. Depois, pichei o mesmo mais umas três vezes nos muros na estrada que dava pra farmácia. O céu estava escuro parecia que ia chover no meu jardim, então decidi que de início era suficiente e retornei pelo mesmo caminho. Daquele dia em diante eu passei acreditar que tudo que acontecia, qualquer imprevisto, privações, convergiam pra um objetivo maior na minha vida, logo, eu não estava no controle de nada, então passei a deixar o destino me guiar em tudo. Tal filosofia de vida me poupava energia e frustrações desnecessárias.   

Enquanto voltava me sentia mais leve, como se tivesse tirado mais um peso das costas. Uma tempestade se formou e caiu sobre os meus ombros aquela manhã; chovia tanto que eu mal conseguia ver o caminho à frente, por sorte eu conhecia aquele caminho assim como um doente crônico conhece os tratamentos e sintomas de sua mazela. Carlos salgado era a minha moléstia e eu precisava me curar, a primeira dose eu tinha tomado aquela manhã, no entanto, era preciso esperar uns dois ou três dias até a próxima dose. 

Enfrentado aquela chuva, do nada, um guarda chuva surgiu sob minha cabeça. Eu não quis saber quem segurava o guarda chuva, pois não importava. Ele me acompanhou até em casa e depois desapareceu. Talvez, nunca saberemos de quem eram as mãos bondosas que seguravam aquele objeto que amenizou minha tempestade aquela manhã. Talvez a leitora saiba e me diga, porque eu mesmo não sei. Ao chegar a minha casa, minha mãe ainda não tinha dado por minha falta; saltei o muro, pulei a janela do meu quarto, troquei de roupa e, quente e segura eu dormi o sono dos justos.

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