domingo, 12 de março de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo XII






Dois dias se passaram depois de minha saída a surdina pra dá início meus planos e eu não sabia se os efeitos que eu havia desejado, ou melhor, planejado, tinham se confirmado. Mas mesmo sem saber, era preciso dar continuidade. Sempre soube desde o dia que pensei naquele plano que seria um processo longo que requeria paciência e frieza pra admitir as derrotas, afinal, não era apenas minha mente em jogo, tinha o livre arbítrio de outras pessoas que eu não podia ter a presunção de querer manipular nos mínimos detalhes, não ao ponto de tudo funcionar perfeitamente. Mas eu tinha que tentar e seguir um passo de cada vez; movimentar uma peça por vez pra chegar ao cheque mate e finalizar a partida, ou, pelo menos não morrer com a ideia de que não tentei. 

Naquele dia levantei ainda de madrugada e me sentei na penteadeira. Passei dez minutos vendo meus olhos com olheiras, meus cabelos assanhados, minha cara de sono, pensando em tudo e em nada. Depois, passei um batom rosa, um brilho nas bochechas, vesti minha roupa mais colorida, coloquei meus tênis mais chamativos e passei a me apreciar novamente com os olhos fixos naquela nova personagem de mim. Notei que daquele jeito, tão colorida, era mais difícil das dores me atingirem, pois com aquela armadura colorida como um arco-íris, as dores batiam nela e ricocheteavam, logo, aquela aparência era uma ótima forma de me proteger. Ao chegar àquela conclusão eu compreendi porque que Carina escolhera enfrentar a vida com música, com roupas coloridas e não com preto e lágrimas como eu. 

Respirei fundo, coloquei um sorriso dissimulado no rosto, peguei minha mochila de sempre, pulei a janela, depois o muro e fui em direção ao meu destino. Infelizmente, naquele dia eu simplesmente não podia voltar antes das oito da manhã, logo, minha fuga talvez fosse descoberta, mas os gritos valeriam a pena. Esperei sentada numa parada de ônibus a um quarteirão da farmácia que aquela loira linda surgisse no horizonte. Enquanto esperava, surgiu aquele garoto que talvez fosse justo chamá-lo de Taffarel de tanto que ele falava nele. Com a bola e o mesmo uniforme, ele se aproximava jogando a bola no chão e pegando de volta. Se ele me via, ignorava completamente. Eis que do nada, assim como todas as coisas boas acontecem, ele se impõe na minha frente, sorrir lindamente e diz: 

- Um pavão cagou em você? Você tá parecendo uma Paquita da Xuxa. Tá bonita, mas não acho que essas cores combinam com você. 
Ele podia muito bem seguir os protocolos e dizer: olá, tudo bem? Mas era óbvio que aquele menino não era do tipo que se importava com regras de etiquetas ou qualquer coisa que o valha. Ele nem devia falar comigo depois daquele vexame que me fez passar na escola, mas aparentemente ele era daquele tipo de pessoa que esquece rápido de tudo. Como eu o invejava, pra ele, cada dia realmente era um novo dia. Diferente de mim, que ficava remoendo o passado e que não conseguia esquecer nenhuma palavra de escárnio a mim proferida. Não existe melhor terapia do que esquecer. 
Ele então se senta no banco do meu lado, arranca uma flor violeta daquelas que se via em toda parte e coloca no meu cabelo:

- Veja: agora você está uma perfeita Carmem Miranda. Ele riu, mas já não me olhava, ele tinha os olhos no horizonte como se já tivesse se esquecido daquele gesto bonito. Como eu o invejava! Ele continuou falando: 

- Quando eu voltar de viagem, a gente devia sair pra dá uma volta, só pra andar mesmo, gastar energia, fazer umas flexões, correr... O que você acha? - Disse ele ainda sem me olhar, como se eu não existisse, ou melhor, como se o mundo ao nosso redor fosse mais interessante do que eu - e ele tinha toda razão. 

- Eu acho ótimo! Respondi sem pensar. 

- Beleza truta, eu volto daqui a dois dias. Nos encontramos aqui nesse mesmo local pra corrermos até acabar o fôlego.
Ao ouvir aquilo, sem sentir a necessidade de entender, eu quis olhar nos grandes olhos cor de âmbar dele  e foi o que fiz. Meus olhos grudaram nos dele e só. Talvez fosse a primeira vez que eu encarava alguém de frente sem sentir vontade de me enterrar depois em mais de dois anos. Eu me perdi naquele mundo cor de mel e não queria mais me encontrar. E se me perguntassem por que, eu não sabia, e aí é que se encontrava todo o encanto. Podia ser só uma atração carnal, mas o fato de eu não saber o que era me colocava milhões de pássaros azuis no estômago e eu amava o canto deles. A verdade é que, se a gente entender não é amor. 

Depois que o ônibus veio e o levou pra jogar numa cidade vizinha, eu quis saber o seu nome, mas já não podia perguntar. Males da distância! 
Mesmo depois da partida, aquele garoto ficou e talvez ficasse pra sempre. Involuntariamente eu comecei cantar: “se a Débora Kerr que o Gregory Peck, não vou bancar a santinha não”, e minhas pernas deram por si balançar sozinhas e eu não conseguia controlá-las. Falei baixinho pra mim mesmo: “Que música boa, que manhã bonita”. Pensei que Bukowski cometia um erro grande em não deixar o seu pássaro azul escapar, era maravilhosa a sensação. O amor tem esse poder de fazer a gente acreditar que tudo é pra sempre, e não importa o tamanho do pra sempre, se te fizer acreditar, mesmo que por um segundo que é eterno, já terá valido a pena. Eu sei que eu tinha dito que nunca mais me apegaria, mas isso eram longe daqueles olhos. 

De repente, vi a silhueta daquela loira linda vindo em minha direção. Avidamente me levantei, e comecei fingir que ia a algum lugar. Esperei sinceramente que ela não percebesse a meu teatro e acho que não percebeu. Quando me aproximei, eu gritei:

- Nossa como você é bonita e tá grávida. Sempre quis ter uma irmãzinha. Posso tocar na sua barriga? 

- Claro! Fique a vontade. 

- Parece que ele se mexeu. 

- Ele sempre faz isso. 

- Porque seu marido não vem deixá-la no trabalho de carro? Perguntei somente pra puxar conversa. 

- O médico aconselhou que eu andasse mais para o sangue circular, disse que faria bem pra mim e o bebê. 

- Que barriga quente! E você realmente é uma mãe linda.
Nisto, peguei a flor que aquele garoto quase idiota tinha posto no meu cabelo e coloquei nas lindas madeixas dela. Ela era mesmo uma mãe linda e sorria como ninguém. Ela agradeceu, até ficou emocionada, seus olhos umedeceram que até eu quis chorar também. Ela devia receber muito pouco carinho do marido. Às vezes pequenos gestos de carinho podem mudar o dia de alguém; um sorriso, uma palavra de incentivo, pode significar muito. Ao me deparar quando aqueles olhos úmidos e aquele sorriso, eu olhei pra minha roupa colorida, pra minha figura ridícula e achei que tudo combinava perfeitamente comigo. O mundo é como o enxergamos. 

- Qual o seu nome, moça Colorida? - Peguntou ela com interesse. 

- É Val? -
 Nem perguntei o dela, pois já sabia. 

- Se seu bebê for menina, que tal chamá-la de Tatiana? É um nome bonito e colorido, como eu. Disse como se não tivesse pensado de antemão naquelas palavras.  

- Esse nome tem dias que tá na minha cabeça mesmo. E é mesmo menina. Prometo que vou pensar no seu caso. - Disse ela tocando nos meus cabelos.  

- Pense mesmo.
"Nossa, que conversa clichê!" Pensei eu com meus botões.

- Bem, eu vou indo, espero que a gente se encontre por aí de novo. Essa flor combinou mais com você do que comigo. - Disse já me despedindo.   

- Obrigada! Espero que não suma; suas palavras hoje transformaram o meu dia. Até meus pés parecem menos inchados agora do que antes. Quando quiser me ver, conversar, eu trabalho naquela farmácia mais a frente. 

- Eu venho sim, quero acompanhar o crescimento da Tati. - Toquei mais uma vez em sua barriga quente e dura e fingi ter pra onde ir. Dei a volta no quarteirão e voltei pra casa saltitando, toda colorida e feliz. E se me perguntassem por que eu estava tão feliz, eu diria sinceramente que não sabia. Sem bem que não saber a razão dos sorrisos é a melhor parte da felicidade. Nada como um dia após o outro.

Leia o capítulo 13 clicando nesse link, você terá a chance de decidir como a história continua

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