domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capitulo XIII





Há alguns passos de casa, enquanto eu caminhava cantando e feliz, sai de detrás de um poste de luz aquele garoto que eu tinha cometido aquele erro terrível no banheiro da escola. Ao ver aquela cara lambida, involuntariamente, imaginei ele evaporando, mas pra sempre, não no sentindo metafórico. Ele se aproximou com um olhar querendo ser sensual que o tornava cada vez mais irritante. Eu tentei fingir que não o via, mas ele se aproximou e segurou no meu braço e lambeu os lábios num gesto que me deu nojo. 

- O que você quer garoto? 

- Eu quero você de novo. 
Disse ele segurando o pênis como se aquele membro idiota me fizesse sucumbir aos seus desejos. Mas sabia ele que se eu tivesse uma espada samurai a minha disposição eu tinha decepado a mão dele e o pênis. Os homens são mesmos ridículos, acham que porque ostentam um músculo cambaleante que as mulheres não têm, sentem-se superiores ou que têm algum poder sobre elas. Se ele tava pensando que aquele ato impulsivo ia se repetir, ele tava completamente enganado. Mas de súbito me ocorreu uma ideia plausível; se existia uma pessoa que eu poderia usar sem escrúpulos algum era aquele idiota e nada seria mais justo; era a minha chance de fazer justiça. Então, mudei logo a cara e disse dissimuladamente:

- Hoje não. Mas se você me ajudar numa coisa, quem sabe em outro dia. Eu confesso que gostei de você, gatinho. Ao ouvir essas palavras os olhos negros do garoto brilharam o fazendo sorrir de forma descarada, e disse: 

- Qualquer coisa que você me pedir eu faço, sem pensar duas vezes. 

Nem precisava ele dizer, eu sabia que se eu pedisse uma rocha de marte, ele me traria. Mas uma coisa era certa, ele nunca mais veria a cor do meu corpo, ia viver de ilusões pra sempre, se bem que eu achei que ele não ia reclamar. Eu era um demônio, certamente, mas era o que o meu mundo exigia, de modo que eu pensava aquilo maquinalmente sem nenhum resquício de remorso. E os olhos daquele garoto feio e idiota pediam pra que eu o transformasse em minha marionete. Sem contar que mantê-lo por perto e nas minhas rédeas, impediria que ele contasse o nosso segredo pra alguém. Então eu pedi o que talvez fosse mesmo pra ele uma pedra de marte, ou não, de repente era de sua realidade.   

- Eu quero que me consiga uma droga; um negócio que os malucos tomam pra ficar doidão e fora do mundo, acho que chamam de LSD. Tem como você conseguir? 

- Claro que tem. Pra quando você precisa? Disse ele com a boca, embora o resto do corpo evidenciasse que não tinha, mas eu sei que ele daria um jeito. Pensar aquilo me provocou um alívio. Conseguir a bagulho era um problema dele e não meu. Ele iria me poupar muita energia. Não há nada mais reconfortante do que ter pessoas aos nossos pés, e alguns homens nasceram pra marionetes. Então eu respondi: 

- Amanhã mesmo. Você me entrega na escola, pode ser? 

- É claro. Respondeu eufórico tentando um abraço que eu prontamente repeli dizendo que caricias só depois que ele conseguisse o que eu queria. - E continuou. - Então você usa drogas, pensei em muitas coisas ao seu respeito, mas não que usasse drogas. 

- Não seja idiota! Eu não quero pra eu usar, tenho outros planos, mas deixe que eu me preocupe com isso, trate apenas de conseguir a parada. 

No mais, ele se foi satisfeito com a ilusão e eu fui pra casa ciente de que ele teria muita utilidade. Eu tomava as rédeas da situação e a sensação de estar no controle era reconfortante. Pulei o muro, subi a janela, o quarto continuava trancado, talvez eu não fosse descoberta aquele dia também, isso me daria tempo e calmaria pra continuar com o plano. Mas de repente, eu ouço a voz de Carina: 

- Pode me dizer o que você tá tramando com essas fugas? 

- Não é nada, só saí pra correr. A mãe sabe que eu ando saindo?

- Não, mas se você não me contar, eu conto tudo pra ela. 

Eu pensei em contar tudo, mas logo pensei que era loucura e era melhor deixar aquilo só comigo, ninguém seria capaz de entender. Então contei outra versão que era bem real.

- Tá bom! Vou te contar: Eu ando me encontrando com o namorado da Gabi. Não pense bobagens, a gente só corre e conversa, não estamos ficando. 

- Ah, ta bom! Quer dizer que não rolou nem um beijo? Você tá se demonstrando bem danadinha irmãzinha. 

- Nada, é só amizade. E você nem ouse contar pra ninguém, se minha mãe descobre que ando saindo, e mais com um garoto, e mais, e compromissado, ela arranca meu pescoço. Trate de manter essa matraca fechada. 

- Não direi nada. Estou muito feliz por você, vejo que tá seguindo sua vida, tentando ser como todo mundo. Sorrimos juntas e nos abraçamos. Era uma mentira que eu podia sustentar. Como foi bom poder inventar uma mentira boba que não sugeria que era por conta do meu problema, como minha mãe sempre dizia. Nunca pensei que algo tão simples me proporcionasse uma sensação tão normal. 

- Mas me explica como você entrou no meu quarto? 

- É muito simples. Todos da casa têm uma cópia da chave do teu quarto. Não era pra eu te contar, mas eu acho que você deve saber. Por muito tempo pensamos que você poderia tentar tirar a própria vida, então fizemos cópias pra gente entrar sem fazer alarde. 

Essa era nova. Como eu não tinha percebido antes? Então eu sempre fui muito mais louca para o mundo de fora do que pra mim mesma. Eu não conseguia entender como que poderiam pensar que eu iria querer tirar a própria vida. Nunca tinha passado pela minha cabeça o suicídio, porque simplesmente eu não sabia que existia tal coisa, já tinha ouvido falar, óbvio, mas era uma coisa que tipo só acontecia com os outros. De fato não sei qual ato de minha parte figurava um ato tão extremo. Era-me muito estranho. Logo me veio na cabeça que se eles tinham acesso ao meu quarto, poderiam ter visto a boneca, ouvido a fita e tudo o mais. E se viram, concluíram logo que eu ainda me encontrava longe de superar a noite de 93; se eu construía bonecas como a Tati, confeccionava seu nome de papelão, gravava sua voz com cantiga de ninar, de fato eu era realmente completamente louca. Se eu visse algo daquele tipo também concluía que quem o fez era doido varrido. Somente eu sabia quais os objetivos daqueles objetos. Espero que o leitor  esteja captando as pistas, pois eu nunca vou deixar claro, então entenda sinais.
Com aquela nova informação, eu perdi novamente controle, já não era maquiavélica, nem madura como pensava, era criança mimada que não podia ter sequer um pouco de privacidade.









    


4 comentários:

  1. Muito interessante, tentava encontrar algo na literatura brasileira, mas nunca havia encontrado, pensei que só o bestseller: The Catcher in the Rye , falava de jovem para jovem. Parabéns 👏👏👏👏 Opção 1

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  2. Respostas
    1. Seria uma ótima ideia. Eu já gravei gravei alguns de meus textos, de repente, seria uma boa ideia.

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