domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo XIV




Eu quis gritar, quis correr, quebrar coisas, ver objetos esfarelados pra que eles se juntassem as condições do meu coração aos pedaços, mas me continha. Embora ao redor de mim um anel estranho se formasse e me forçava a ser quem eu já não era. Então me concentrei no futuro e no rosto feroz de um touro na embalagem do desodorante da Avon cujo me olhava com ira de cima da penteadeira. Eu precisava ser como aquele touro. Poderiam olhá-lo com angústia, com tristeza, desfaçatez, com qualquer sentimento, que o seu olhar penetrante e dilacerante se mantinha; aquele bisão da Avon tinha emoções próprias e eu tinha muito que aprender com ele. Assim, conclui que eu precisava deixar de ser um espelho que refletia as emoções alheias e agir com serenidade e maturidade e relevar aquele novo fato. Se julgassem aquele gesto mais uma de minhas insanidades, que assim fosse, eu não iria me importar. Então disse pra Carina com a segurança de uma mulher feita:

- Acho que foi uma boa medida. Eu mesmo não sei do que sou capaz, justo mesmo que tomassem precauções e me mantivessem sobre constante vigília. Agora você Carina, - disse com um sorriso descarado, - se minha mãe descobre tudo que você esconde, principalmente a respeito daquele seu namorado, você está frita. Não estou ameaçando, claro que não, mas você precisa cortar todo tipo de relação com aqueles amigos do Cabo Carlos. Tenho que confessar que não confio neles. 

- Eu não vou fazer isso! Eu amo o meu namorado! Sem contar que você tá completamente errada sobre eles. Eles não tiveram nada a ver com o que aconteceu com a gente aquela noite.  

- Não sei não. Pode ser só paranoia minha; mas e se Cabo Carlos tiver mantendo você por perto por meio deles, apenas pra que você não faça nada contra ele? Acho que deve cogitar a possibilidade! 

- Claro que não. Acho que ele já se deu conta há muito tempo que bastam as ameaças e as histórias que rola na cidade a respeito dos métodos poucos ortodoxos que o pai dele usa pra resolver os problemas pra nos manter quietas. Espero que você tenha tanto medo dele quanto eu. Você não tem? 

- Eu não tenho medo de nada. Só tem medo quem tem algo a perder - e se eu morrer não vai ser uma grande perda pra humanidade. Eu não sou nada, nunca serei nada, a parte isto, só tenho em mim todo ódio do mundo! 

- Tá vendo porque pensamos que você poderia tirar a própria vida. - Disse ela me abraçando. Você diz muita besteira, mas eu amo você. 
Aquele abraço me dizia que o que eu pensava não poderia ser levado em consideração, já que eu não batia bem da bola. 

- Agora sai do meu quarto que eu quero ficar sozinha. Sorrindo eu coloquei Carina pra fora, precisava de solidão, senão, o mundo teria de mim novamente o que ele sempre quis. 

O dia passou e, mesmo que eu tentasse pensar em algo interessante, que fosse racional, que me fizesse algum sentindo, eu só conseguia pensar na minha corrida na manhã seguinte com o garoto sem nome e sem regras. Não me julgue leitora, você bem sabe que o coração tem razões que a própria razão desconhece. 
A noite foi uma tortura. O deus Chronos passou a noite brincando comigo e não me deixou dormir. Quase de manhã, como última de suas façanhas, ele resolve me fazer adormecer.
Ainda que atrasada, me levantei, me enfeitei, coloquei minha melhor roupa; cheia de ilusões que só vendo. Eu não passava de uma adolescente normal, daquelas que se enchem de adereços pra ir até a venda da esquina. Quando consegui sair de casa, isso duas horas depois, minha mãe já mexia nas panelas na cozinha, logo pensei que seria flagrada; pulei a janela o muro e corri em direção a minha liberdade, mas aparentemente ninguém me viu.
Ao me aproximar ao local combinado, lá estava ele, ridiculamente de cabelo penteado, roupas leves e um buquê bem mixuruca, me esperando com aquele jeito inquieto como sempre. Eu confesso que o achei bem ridículo, meu coração era que tentava me convencer do contrário. Eu adorava o cabelo dele cortado no estilo surfista, super na moda, o seu jeito despojado de quem não tava nem aí. Mas aquele dia parecia que ele tinha planejado tudo. Confesso que me senti honrada, pelo menos não era só eu que me encontrava vivendo de ilusões. Quando ele me viu, jogou rapidamente buquê pra que eu não visse, mas sem sucesso. Quando me aproximei o suficiente, pra fingir naturalidade, ele faz três flexões e diz: 

- Se prepara que vamos correr até liberarmos toda energia ruim que existe dentro de nós. Vi isso em um filme de porrada; não tenho a menor ideia do que seja energia ruim, talvez seja a sensação que eu sentia quando olhava pro auto retrato da Frida Kahlo que meu pai tem na parede na nossa sala. Ele diz que é original, mas eu bem sei que não é. Meu pai adora aquele quadro, passa horas olhando. Ele disse que quando eu casar vai ser o meu presente de casamento. Quando eu era criança tinha medo daqueles olhos monocelhas me olhando; mas meu pai me falava tanto dela que confesso que com o tempo fui me acostumando, até que me apaixonei por ela. Hoje, sempre que passo em frente o quadro, eu a saúdo, pois foi a minha primeira paixão. Você gosta da Frida kahlo? 

- Sequer a conheço. É bonita?

- Depende do ponto de vista. Eu tive por ela uma daquelas paixões de morder, assim como por Elis Regina dos vídeos do meu pai. “Madalena, o meu peito percebeu, que o amor é uma gota”. Cantou ele me beliscando, nitidamente deixando totalmente de lado o buquê e as palavras que ele tinha planejado dizer e sendo o garoto de que eu gostava. Mas logo repeli a investida dele alegando que ele namorava aquela magricela. 

- Aliás, porque você namora aquela menina insuportável?

- Primeiro, vamos nos apresentar: chamo-me Jorge, mas me chame de Jorge Luiz, não tem Luiz no meu nome, mas eu acho que assim soa melhor na voz do Galvão Bueno. E o seu nome eu sei. E respondendo sua pergunta: Eu fico com aquela magricela por uma razão bem simples: todos os meus amigos a querem - e também gosto dela. Não é uma paixão de morder, mas confesso que ela é bem, bem, sei lá, linda. Não tanto quanto você, mas é bonita. Mas vamos correr que nós ganhamos mais, afinal, foi o que viemos fazer. Não foi? 

Confesso que julguei a resposta dele bem reconfortante. Eu poderia dá uma de moralista e dizer que não, mas meu coração não permitia. Conclui que se ele não gostava dela tanto, podia muito bem terminar. Eu não perguntei se ele conhecia minha história, tive medo de saber que ele sabia que eu tinha fama de louca e todo o resto, então nossa relação deixasse de ser normal como fingíamos que era. Coisas de quem ama.

Depois de correr por vários quilômetros sem direção aparente, retornamos para o mesmo ponto de onde saímos. Deitamos-nos na grama, eu sorri, ele sorriu. Até que ele resolve, numa brincadeira, pular em cima de mim e tentar um beijo. Meu corpo encolheu, eu me senti me perdendo dentro de mim e voltando no tempo. Logo que percebi o corpo de um homem suado sobre mim, as sensações daquela maldita noite voltaram como uma âncora e eu pensei que elas levariam para o fundo do mar a minha felicidade. Ele encostou os lábios na minha boca eu os mordi; eu iria arrancar um pedaço deles como da orelha do Cabo Salgado,  mas logo me dei conta que aqueles lábios não tinham a textura nem o gosto de que eu me lembrava da noite de 93, tão pouco o corpo dele me prendia, nem me forçava a nada; era tudo diferente e libertador. Ele, assustado, me larga e diz sorrindo com uma voz de dor: 

- Uma coisa é certa, nunca mais vou me esquecer desse beijo. 

Com quinze anos eu nunca tinha beijado e nunca tinha tido curiosidade, pois o mais perto de que eu me lembrava de um beijo não era bonito, nem mágico, como foi aquele dia. Depois daquele beijo sem técnica nenhuma, eu levantei, fui até onde ele tinha jogado o buquê ridículo, juntei e voltei pra casa feliz como os unicórnios da terra do nunca; se é que existem unicórnios na terra do nunca, sei que no meu coração tinha milhões deles, saltitantes e mágicos...

Leia o capítulo quinze clicando nesse link 

Nenhum comentário:

Postar um comentário