domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo XV








É importante ressaltar que eu retornei pra casa feliz, pensando naquele beijo, pensando em Jorge Luiz, embora o tivesse largado lá na grama sozinho e sem dizer uma palavra sequer, mas quem disse que a gente precisa entender. Juro que pensei abandonar os meus planos malignos e viver de amor pro resto da vida; sei que ninguém iria se importar, nem mesmo a alma de Tati cuja me sussurrava ao pé do ouvido toda noite pra eu escolher o amor acima de tudo. Mas depois pensei que não era justo comigo, nem com Tati, muito menos com Carina, eu precisa tentar só pra não conviver com a sensação horrível da covardia. 

Enquanto retornava pra casa eu pensava nas coisas que eu tinha que fazer à tarde pra continuar os meus planos, embora o beijo de Jorge me surgisse de vez e sempre me levando pra qualquer lugar colorido cheios de unicórnios. Mas era preciso separar as coisas. Como se fosse possível se tratando de paixões. A gente vive se enganando mesmo!  
Porém, seria naquela tarde que eu iria verificar o quanto aquele garoto pouco elegante estava disposto a fazer por mais alguns segundos de ilusões. Se bem que, talvez eu não quisesse mais tanto que ele conseguisse a droga que eu tinha pedido. Se ele conseguisse o entorpecente, certamente ele ficaria no direito de me cobrar alguma coisa, mas bastava adiar o evitável. É muito fácil manter os homens na palma da mão. Pensando nisso, conclui que era melhor mesmo que ele trouxesse. 

Cheguei a casa, ninguém deu por minha falta. Como eu tinha o costume de acordar sempre depois das dez da manhã, ninguém me incomodava antes das onze. Essa era uma vantagem de se ter um problema, eu não tinha obrigação de fazer tarefas domésticas, pois ao certo não desempenharia bem, então, não tinha que acordar com os galos. Deitei-me e por razões que bem conhecemos, não consegui dormir; aquele beijo ainda existia em meus lábios. Certo que talvez eu tivesse enaltecendo demais um gesto tão simples, mas é isso que os adolescentes fazem: transformam grãos de areia em castelos.   

Às dez da manhã eu fingi que acordei, fingi que tomei café, depois fingi que tomei banho e demorei duas horas me arrumando; numa tentativa de me tornar mais bonita que a magricela namorada de Jorge Luiz – e deu certo; senti-me muito bela. Sem sombra de dúvidas eu tinha os meus encantos. Depois de passar em frente o espelho dezenove vezes de propósito a fim de me pegar de surpresa, sabe, pra me ver como era que os outros me veriam ao caminhar pelo corredor da escola, mas descobri que me pegar de surpresa era quase impossível. Sei que as meninas entenderam o que eu quis dizer. Após perceber que não me daria por satisfeita e não tinha mais tempo de ficar em frente o espelho, verifiquei se a boneca que trajava a réplica do modelito de Tati se encontrava na mochila onde sempre a deixei e sai pra esperar Carina na calçada. O sol do meio dia me fez tão bem que eu quis abraça-lo; fechei os meus olhos e deixei que aquela energia maravilhosa se apoderasse de mim. De olhos fechados, estranhamente senti como se eu me encontrasse no cume de uma montanha e selvagens com tambores ritmassem um ritual belíssimo de absorção de energia em  nome  da deusa do sol que era eu. O mundo girava eu inspirava a luz e tudo em mim brilhava. Talvez essa ideia me tenha surgido devido às inúmeras vezes que assisti Lagoa azul na sessão da tarde, mas não deixava de ser uma cena bonita.  

Tão logo cheguei à escola, o rapaz de pouco charme me puxou de lado e me entregou o que seria LSD, eu não quis sequer verificar, nem mesmo tocar naquilo, mas ele foi logo me avisando:  

- Não é LSD, mas o cara que me vendeu disse que é uma substância extraída de um cogumelo poderoso que vai provocar muitas alucinações. 
Notei logo em sua face o medo que ele tinha da minha reprovação e, com razão, pois sabemos que não há honra no mundo do crime, então aquela substância poderia ser pílula de açúcar, mas era preciso confiar, já que não tinha outra opção. Então o abracei e proferi uma palavra de consolo, fato que fez com que ele respirasse e depois lhe passei o restante do plano.  

- Eu quero que vá à lanchonete ali do lado, compre uma Coca-cola e coloque esse negócio dentro, feche a garrafa - e escute bem pra não dá mancada: aguarde a viatura daquele policial que passa todos os dias aqui em frente pra ver as meninas; você deve conhecer, ele finge que vai a lanchonete tomar uma Coca, mas eu bem sei quais são as suas intenções verdadeiras. Quando ele chegar, se disponha em frente ao balcão e espere ele buzinar pro dono pra que lhe entreguem o refrigerante, então como você vai se encontrar mais próximo ele vai pedir que você leve e entregue ao desgraçado. Você só tem que trocar as garrafas e entregar a garrafa batizada. Pode ser que ele perceba que algo tá diferente com o lacre, mas cavalo dado não se olha os dentes e você já deve se encontrar longe quando isso acontecer. Assim que entregar a garrafa, volta pra escola e me conta como foi. 

Poucos minutos depois do garoto ter saído, embora morrendo de medo, ele retorna tremendo feito bambu e dizendo:

- Tá feito, mas acho que vai dar merda. Mexer com a polícia não acaba bem. Estamos ferrados. 

- Calma! Nada vai acontecer. Pode ficar tranquilo. Agora vai pra sala que o sinal já tocou. Eu não vou estudar hoje que preciso concluir os meus planos. E trate de não contar nada pra ninguém, “querido”, amanhã nos conversamos. E fica calmo que tenho tudo sobre controle. 

Quando ia me direcionando pra saída secreta no portão de trás, uma mão macia e cheirosa me segurou forte pelo braço; unhas vermelhas, pelos descoloridos, eu bem conhecia aqueles braços finos e charmosos. Por impulso do momento, simplesmente me virei e beijei a boca do corpo que sustentava aqueles braços. A razão porque eu beijei aquela garota talvez tenha sido sensata, pois aquele beijo poderia evitar um escândalo, já que silenciaria a pessoa que me segurava. Mas talvez eu realmente quisesse beijá-la, por desejo ou qualquer coisa que o valha. Sei bem que o sangue que se via de longe nos olhos da garota logo se desfez com o beijo e fez com que ela simplesmente voltasse de onde viera tocando nos lábios, certamente sem entender muito bem o que acontecera. Ninguém viu, logo, o escândalo estava sanado.

“Que lábios macios”, eu pensei, mas depois des-pensei e fui em direção à saída pra concluir os meus planos. Desde que Carina não desse por minha falta, tudo estava saindo como planejado.

LEIA O CAPÍTULO 16 CLICANDO NESSE LINK  



Um comentário:

  1. Iolanda Nascimento15 de abril de 2017 20:24

    Não estou conseguindo ler o capítulo desseseis.Quero muito saber como será os próximos capítulos desta emocionante história

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