domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo XVI




Ao me libertar dos muros do colégio, quando me direcionava em direção à praça a fim de ver o policial já em suas alucinações e totalmente perturbado, eu encontro Jorge Luiz indo em direção à escola pra usar a quadra esportiva no contra turno uma vez que ele estudava de manhã. Eu não esperava vê-lo e talvez encontrá-lo naquele momento não fosse o ideal, mas até que gostei; meu coração palpitou e eu fui às alturas. Mais uma vez pensei em desistir de tudo e ir namorar em um local discreto como qualquer garota na minha idade faria, mas me contive, pois eu me encontrava em um momento muito confuso. Quando eu refletia sobre a possibilidade de iniciar, tipo, um relacionamento sério com ele, não me parecia uma grande ideia, pois tinha muitos problemas envolvidos. Se ele descobrisse aquele maldito deslize incontrolável no banheiro da escola; se ele ficasse sabendo que há poucos minutos eu tinha beijado sua namorada, se ele tomasse conhecimento dos meus planos pra destruir o cabo Carlos Salgado, tudo estaria acabado. Era muito complicado, ou talvez não, eu era que complicava tudo. Mas ele me olha com aqueles olhos grandes e simplifica tudo dizendo: 

- “Eu jurei pra mim que nunca mais amaria ninguém, e que se acaso eu me envolvesse seria coisa de momento”, mas você apareceu e tudo mudou. Acho que eu Te amo Valquíria! Claro que eu ainda tenho que consultar os astros a respeito, mas tenho quase certeza. 

Eu ri e o beijei. Era a única coisa plausível que eu poderia fazer naquele momento. O papo dos astros foi muito engraçado. Até que ele me convidou pra passar à tarde com ele, mas eu disse que não podia, pois tinha assuntos importantes a tratar. Ele ficou intrigado, porém ele não me parecia ser do tipo de pessoa ciumenta, nem desconfiada, era do tipo que simplesmente vivia. Como eu o invejava. Ele sequer questionou porque eu estava matando aula, ou seja, era o homem perfeito. Ele foi jogar e eu fui exercer a arte de não ser normal, embora tenha combinado de nos encontrar mais tarde, no entanto eu tinha a consciência de que vê-lo com a sua namorada depois de tudo que aconteceu, não seria uma boa ideia, mas depois eu pensaria sobre isso. 

Quando cheguei à praça, logo avistei a viatura, mas não encontrei Carlos Salgado; certamente estava com algum esquema com uma aluna novinha como ele gostava, e provavelmente drogado, talvez aquilo não acabasse bem e eu seria a culpada. A culpa me pesou sobre os ombros. Mas por sorte ele saiu da mercearia com uma garrafa de água e retornou pra viatura e lá ficou; embora nitidamente diferente, sem aquela segurança costumeira proporcionada pela farda. Sorrateiramente me aproximei um pouco mais e camuflada pelos arbustos ornamentais da praça eu fiquei observando; sua testa suava; seus olhos não pareciam se fixar em qualquer coisa, estava inquieto, irritadiço. Não conseguindo ficar na viatura, ele novamente saiu do carro, vai até a mercearia, pede outra água e se escora na parede do local fingindo saber o que estava fazendo, mas visivelmente alterado. Ao vê-lo naquela situação eu conclui que seria a oportunidade perfeita. Então corri até em casa, pulei o muro, pulei a janela do meu quarto que eu mantinha sempre aberta exatamente para aquele fim, peguei meu toca fitas de porte médio e rapidamente tomei o caminho de volta à praça, torcendo que ele ainda estivesse lá naquele mesmo estado deplorável, uma vez que certamente eu iria gastar mais de meia hora no percurso ida e volta.

Porém, logo depois da farmácia, o destino me agraciou com um belo acaso: entre duas de minhas pichações, eu avisto a viatura de C. Salgado em frente a um muro de um terreno baldio, mas não notei ele no banco do motorista. De súbito me veio à sensação de que ele se encontrava atrás de mim e tocaria no meu ombro a qualquer momento. Minha espinha se eriçou e meu corpo inteiro se contraiu em um estranho calafrio. Por alguns segundos eu tinha como certo que ele me flagraria e me mataria, não antes de me torturar bastante. Mas foi só uma ilusão proporcionada pelo medo mesmo, de modo que, mesmo contra a vontade de minhas pernas, eu me aproximei até uma distância segura e observei ele fazendo xixi no terreno baldio. Com ele envolvido pelo muro, eu me encontrava longe do seu olhar de demônio do deserto, embora não estivesse totalmente segura. Deitei a boneca na saída do terreno, me escondi dando a volta na parede entre a vegetação e toquei a fita que eu tinha gravado com a voz de Tati em altura razoável. Não tinha como eu ver Carlos salgado antes que ele deixasse as dependências do muro, mas eu sei que ele ouvia a cantiga de ninar em conjunto com os sorrisos de Tati. Se Carlos Salgado sempre fora o paquera de Tati, como eu passei a acreditar desde que descobri que Carina me escondia muitas coisas, ele se lembraria da voz dela e a drogas o fariam pensar que era paranoia, alucinação da cabeça dele ou mesmo a alma dela vindo o torturar pelo que ele fez. De qualquer forma era o que eu podia fazer, se iria funcionar ou não, era outra história. 

Ele saiu meio cambaleando do terreno, não notou a boneca, mas parecia ouvir a música, no entanto, procurava de onde vinha o som, mas não na direção correta, pegou uns blocos de construção, proferiu um grito e jogou na direção contrária da que me encontrava, certamente imaginando que o som partia daquela direção. Se aquelas atitudes pouco sensatas eram responsabilidade da substância ingerida na Coca-cola eu não sabia, mas ele tava visivelmente transtornado. Depois de jogar o bloco, ele para, coloca as mãos nos ouvidos, abre e fecha a boca como se o som que ele ouvia viesse dos movimentos do seu maxilar ou de suas entranhas. Por sorte ele ainda não tinha notado a boneca, o que era algo bom, uma vez que um objeto palpável poderia lhe tirar a ideia de alucinação. Naquela hora eu já tinha me arrependido de ter deixado a boneca ali de uma forma tão evidente; se ele a levasse pra casa, seria uma prova contra mim, mas já estava feito. 

Carlos Salgado então fica olhando para nada por um tempo, provavelmente inconsciente de si mesmo, passa as mãos nos olhos como o Vandame no filme O grande dragão branco e vem em minha direção. Daquela vez eu não teria como fugir, meus planos estavam arruinados e eu tava mortinha da silva. Mas eis que assim como de impulso eu beijei aquela garota, por impulso eu aumentei o volume do toca fitas, com isso ele para, olha para o alto, chuta umas caixas de papelão ali jogadas, encosta a testa no muro e esmurra com força a parede como se quisesse expurgar os demônios que o atormentava. Eu realmente não podia acreditar que alguém podia comentar um crime tão bárbaro e não sentir remorso ou qualquer coisa que o valha. Esse era o único fato pelo qual se pautava meu plano, sem ele, a chance de dá certo era mínima. Mas pelo visto, tava funcionando. Depois de um tempo, quase até senti pena do desgraçado, afinal sou humana, mas logo passou quando me lembrei do gosto de terra e sangue que mastiguei naquela noite de 93. Deu-me vontade de pular em cima dele e arrancar o restante da orelha, mas ele era bem forte, eu não teria chance. 

Ele então, do nada, empunha a arma e aponta em minha direção como se olhasse diretamente pra mim com aqueles olhos vermelhos do diabo. Aparentemente ele realmente me via. Senti-me como em um sonho em que sabemos que estamos longe dos olhos do demônio, mesmo assim, o monstro nos ver, não importa o quanto escondidos estamos. Então senti o cano frio daquela arma em minha nuca e logo depois o cheiro da pólvora do disparo que atravessaria o meu crânio. E não era pra menos, com tudo que eu estava fazendo talvez fosse o meu destino mesmo morrer por uma bala do revólver do Cabo Carlos Salgado. Mas o mundo requer da gente apenas coragem pra fazer o que é certo. Eu sabia que Deus nem a justiça humana fariam nada com aquele desgraçado, uma vez que ele levava a vida como antes, ficando com meninas novas e tudo mais, mesmo depois de casado, mesmo com o peso na consciência, se é que ele tinha consciência, afinal, psicopatas não sentem remorsos, por isso são psicopatas. Embora naquele momento ele sentisse qualquer coisa, mas pouco eu poderia dizer se era remorso ou só efeito da droga que ele havia ingerido com a Coca-cola. 

Depois de um tempo apontando a arma na minha direção, ele guarda, quase não consegue abotoá-la no suporte e entra no carro. De dentro da viatura, ele nota a boneca escorada no muro e desce novamente, mas sequer fecha a porta. Até que sem entender nada, novamente ele senta no banco do motorista e acelera pra qualquer direção que não me interessava mais. Foi muito arriscado o que eu fiz foi, mas era preciso, ninguém faria por mim. 

Depois que ele tomou distância, eu respirei, recolhi a boneca, o meu toca fitas e fui em direção à farmácia. Como eu iria passar o restante da tarde sem fazer nada, resolvi tirar uns dedos de prosa com minha amiga querida e grávida que trabalhava lá. 

Na época eu não pensava nas consequências dos meus atos para os outros, só pra mim, só eu pouco me importava com o que aconteceria comigo. Talvez no dia seguinte cabeças rolariam devido o que eu tinha feito, mas eu era jovem e inconsequente, não ligava pra muita coisa...

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