domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 capítulo XX




Fechei novamente os olhos e talvez tenha adormecido de novo, quando dei por mim, uma frase ecoava na minha cabeça se entrelaçando entre as dores que eu amargava:
“O mundo é um lugar escuro e o coração é uma caixa de fósforos com palitos finitos, não desperdice.” 
Lembrei que eu havia sonhado com anjos divinos de asas cinza, olhos cor de mel, sorrisos tortos e cabelos mal penteados me dizendo isto repetidas vezes: "Valquíria, o mundo é um lugar escuro e o coração é uma caixa de fósforos com palitos finitos, não desperdice". Embora não soubesse o que significava, parecia-me que aquela frase tinha muito sentindo. 
Ao abrir os olhos de vez, minha mente reconstituiu não só o atropelamento de Carina, mas todo o irremediável do meu passado. Lembrei-me da minha infância, das brincadeiras, das bonecas, das paixões inocentes, até a noite de 93. Talvez a fraqueza, os remédios, me proporcionara aquele flash back desnecessário, mas me era inevitável pensar no tempo. Eu sentia dor de cabeça, meu ombro estava enfaixado. Aquele cheiro de éter característico de hospital me proporcionava náuseas quando o inalava sem querer. Entretanto, logo vi minha mãe cuja agradeceu a Deus por eu ter despertado sem grandes sequelas. Mal sabia ela o estado de minha mente. Eu balbuciei o nome de Carina com dificuldade, mas o suficiente pra que ela ouvisse e me dissesse que ela estava bem. Tinha quebrado uma perna, mas iria se recuperar sem sequelas maiores. Não importava o quanto repetissem que ela estava bem, a possibilidade da morte às vezes pode ser mais tortuosa do que a própria morte. Se Carina morre naquele acidente proposital, minha vida não poderia continuar. Embora não tenha acreditado de todo que ela realmente estava bem, escolhi a calma de esperar os fatos se confirmarem pra sofrer. Se bem que o semblante de minha mãe transparecia uma calma que me parecia que ela estava falando a verdade. A gente conhece quando alguém está mentindo, principalmente quando se trata de assuntos tão sérios. 

Depois da calma proporcionada pela certeza do bem estar de Carina, eu adormeci novamente. Os anjos voltaram repetindo a mesma frase que pra mim tinha talvez sentindo. Tem sonhos que nos transportam para o mundo melhor do que aquele que vivemos, assim era quando eu sonhava com aqueles anjos imperfeitos. Eu compreendi que eu quis criar o meu mundo em que eu estava no controle de tudo e de todos, sem a menor possibilidade do acaso - e me custou muito compreender que as minhas ações poderiam reverberar na existência do outro mudando o curso de suas vidas; porém, até então meu egoísmo não permitia ver os anseios, os sentimentos, quer fossem bons ou ruins que as pessoas ao meu redor tinham; esse fora o meu erro até então. Mas talvez eu ainda tivesse chance de mudar qualquer coisa.

Após longas horas de sono, ou poucos segundos, de fato não teria como eu saber, me aparece uma visita que eu jamais pensei em vê-la tão cedo: Amanda Afrânio. Antes mesmo de chegar direito, ela   me abraçava aos prantos como se não existisse mais o amanhã. Após alguns segundos sem conseguir proferir uma palavra que fosse, em meio aos soluços e respiração ofegante, ela me pede desculpas por qualquer coisa. Eu buscava na mente o motivo daquelas desculpas, mas nada me ocorria. Eis que Amanda se recompõe e então mais uma vez pede desculpa, mas daquela vez ela inclui na frase a sentença, "eu não sabia". Eu entendi menos ainda, mas ela continuou:

- Eu morava com um assassino e não sabia. Você precisa perdoar a minha indiferença a sua realidade. Porque você não me contou? Eu tinha o direito de saber. Porque você não me contou? 

Foi então que eu me dei conta que ela havia descoberto tudo que o Cabo Carlos Salgado, pai de sua filha, havia feito. Ela ainda não compreendia que não era só contar, tinha tanta coisa em jogo; se ela não acreditasse, o desgraçado podia negar, e o pior, se eu contasse ele teria a certeza de que eu estava próxima de alguém muito próximo a ele, com certeza ele não iria permitir tamanho disparate. Se eu tivesse contado não tinha conseguindo ir tão longe com meus planos. Não julguei necessário falar isso porque ela não iria entender. Talvez  ela não acreditasse nas ameaças que sofríamos e tudo mais... Ela continuava falando, como se quisesse colocar pra fora tudo que estava lhe torturando: 

- Eu sinto muito por sua amiga. Eu sinto muito por você, por sua irmã, por tudo que aconteceu e vinha acontecendo desde então. Se eu soubesse o tipo de pessoa que ele era, ou que tinha se tornado, eu não teria casado com ele. Meu marido por pouco não matou sua irmã também, como fez com sua amiga Tati. - Disse ela tentando controlar os soluços. – Eu só não entendi porque você fez tanta questão que minha filha tivesse o nome da sua amiga, mas tudo bem, eu não posso ter a presunção de tentar entender a sua dor..., se bem que agora até entendo. 
Ela continuava falando e eu não esboçava reação alguma; algo me dizia que qualquer palavra ali era desnecessária:

- Quando Carlos se deu conta de que a filha dele se chamava Tati, foi à gota d’água, ele surtou, bebeu e quando retornou, quebrou tudo em casa e tentou matar a nossa filha com um travesseiro, por pouco não consegui impedir. Depois ele confessou; contou tudo que tinha acontecido aquela noite. Eu não conseguia sequer ouvir as barbáries que ele dizia. Eu descobri que morava com um monstro. Depois ele pegou o carro, aquele carro que ele escondia na garagem dos fundos como se fosse um grande tesouro e saiu louco como nunca proferindo disparates aos ventos. 
Ao dizer aquilo, desaguava dos olhos de Amanda lágrimas justas, lágrimas de quem viveu uma mentira por longos anos. Quando ela me contou que seu marido havia tentado matar a sua filha, mais eu uma vez a bigorna da punição me esmagou ao me deparar com a consciência de que se ele tivesse conseguido, em um único dia, Carlos Salgado havia tirado mais duas vidas importantes pra mim - e a principal responsável seria eu. Suporto isto sem desandar? Ela continuou falando enquanto eu tentava conter os espasmos musculares que me ocorriam diante daquela nova realidade: 

- Depois de salvar a minha filha, eu rapidamente liguei pra polícia e contei tudo, mas pouco tempo depois eu descobri que ele tinha entrado com o carro e tudo na delegacia e por pouco não atropelou alguém. Ele foi prontamente imobilizado pelos guardas, só não o mataram porque reconheceram que era o filho do chefe. Lá, ainda em surto, ele confessou tudo. Então diante dos fatos, do sangue de sua irmã no carro, não teve como o pai dele fazer nada; era um escândalo aos olhos de todos, não havia sistema que o protegesse mais. Mas agora está tudo bem, ele não fará mais mal pra ninguém. O prenderam, mas devido sua insanidade visível foi logo transferido para o manicômio da cidade. Eu até que o amava, não sei de onde vinha esse amor, mas até que o amava. 

Amanda não sabia que por quase dois anos aquele local fétido pra onde levaram o homem de olhos bonitos,  fora por muito tempo meu lar, também não fiz questão de informá-la um fato tão sem importância pra ela. Ao ouvir que Carlos Salgado estava recluso no manicômio e ninguém mais havia deixado de respirar por suas mãos, embora por pouco tempo, cheguei até pensar que a justiça estava finalmente sendo feita. Eu nunca vou saber se foram as minhas ações que levaram Carlos Salgado a loucura total, ou foi somente sua consciência. Talvez ele sempre fora realmente louco. Eu realmente não sabia e nem precisava saber. De repente aquelas ações eram só uma forma de me passar à sensação de que eu estava fazendo alguma coisa. No entanto, pouco importava as razões, ele finalmente estava no lugar que eu sempre desejei que ele estivesse. Novamente me senti no controle, esqueci a culpa, me vesti do ódio daquele desgraçado, ódio que era justo e abracei Amanda bem forte motivada por aquela sensação que estava no controle de novo. Eu, Valquíria, a eterna caçadora de mim estava de volta. Certo que eu precisava ver Carina, ver aquele rostinho que aquele desgraçado poderia ter tirado de mim, mas minha mente se encheu de ódio, de rancor, se aqueles sentimentos me faziam bem ou mal, pouco me importava, não ia buscar me livrar deles, pois era a motivação que eu precisava. Levantei mesmo contra as instruções de Amanda me dizendo que eu tinha passado por um grande trauma, porém eu pouco me importei, pois me sentia fisicamente bem. Fui até onde Carina se encontrava descordada, mas segundo meu pai que a vigiava de perto, ela parecia muito bem. Os enfermeiros do lugar me localizaram e logo me sedaram e me colocaram no quarto novamente. Depois de um tempo recebi alta, assim como Carina. Na saída do hospital, me devolveram meus pertences, inclusive a pulseira do palmeiras, aquela que era pra mim a insígnia dos meus pesadelos - e voltamos pra casa. 

Encarar Carina depois do acidente, não foi fácil, pois a culpa ainda me assolava, no entanto, ela só queria me abraçar, pois ela não sabia que eu tinha continuado mexendo com fogo com aquele miserável, então disse que aquilo era inevitável, mas como agora ele iria apodrecer no manicômio, não precisávamos mais nos preocupar:  
- Ah Carina! Se você soubesse que o mundo é um lugar escuro, bem mais escuro do que a maioria jamais supusera.

Leia o capítulo 21 clicando nesse link



LEIA O CAPÍTULO 1 CLICANDO NESSE LINK 

2 comentários:

  1. Adorei <3 O senhor é um grande escritor! Aconteceu tudo isto na vida real?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado! Nunca ninguém tinha me chamado de senhor. Acho que pela forma que escrevo aparento ter mais de 50 anos, mas só tenho 26. Boa parte é real, você pode constatar nesse link o que fora real dessa história: https://letraseopiniao.blogspot.com.br/2017/09/a-realidade-por-tras-de.html

      Excluir