domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 capítulo XIX





Quatro meses passados, Amanda Afrânio, minha querida amiga e esposa de Carlos Salgado, meu algoz, já havia dado a luz a uma criança linda. Bem, creio que ela era linda por conta que todas as crianças o são por serem inocentes e tudo mais, uma vez que eu jamais poderia ir a casa daquele desgraçado de modo a constatar o fato. E sabendo das barbáries que de um tempo pra cá ele vinha cometendo, seria muito arriscado, ou melhor, seria a minha sentença de morte, embora eu quisesse muito ver Tati ainda em botão. Durante os quatro meses de amizade verdadeira que fomos construindo, eu sempre conversava com Tati mesmo dentro da barriga, fazendo questão de chamá-la pelo nome, exatamente pra não correr o risco de Amanda escolher chamá-la de Eveline, como ela queria no início da gravidez. Aqueles papos com Tati na placenta, de certa forma funcionavam pra mim como uma terapia. E também Cabo Carlos não tinha muito direito de voto na questão do nome, pois ele era um pai ausente e desnaturado, quase sempre bêbado e violento, logo, não tinha moral pra nada, fato que me relatou Amanda umas mil vezes com os olhos cheios de lágrimas enquanto conversávamos. Então o nome seria Tati mesmo, como a minha querida amiga que o pai dela tirou a vida. Por alguma razão eu encasquetei a ideia de que se ele havia tirado a vida de uma Tati, justo que ele também colocasse outra no mundo. Certo que nunca, por hipótese alguma, isso lhe tiraria a culpa, nem o faria se redimir dos seus erros, mas eu julguei que seria importante. Era o meu mundo, eu o concebia como melhor me aprouvesse... 

A minha amizade com Amanda foi também uma manobra arriscada. Carlos Salgado Filho poderia nos ver juntas e aí seria o fim. Ela mesma poderia comentar com ele alguma coisa a respeito de mim, era só ele associar os fatos, então todos os meus planos iriam por água abaixo. E se por um descuido ela visse a pulseira do Palmeiras com as suas iniciais que eu sempre carregava comigo. Não gosto nem de pensar. Provavelmente aquela pulseira fora um presente dela para o marido. Que desculpas eu inventaria pra justificar o fato daquele regalo se encontrar em minha posse? Eu tinha me arriscado em demasia até então. Porém, até o presente momento tudo tinha corrido como planejado. Carlos Salgado não tinha desconfiado dos meus atos, se sim, não se utilizou de represália, logo, minha vingança seria concluída. Como é bom quando os planos da gente funcionam exatamente como planejamos. Mas nem tudo era um mar de rosas... 

Numa tarde rotineira, eu caminhava em direção à escola com Carina, sempre olhando pros meus pés, como se eles fossem os únicos responsáveis por me levar à escola e o restante do meu corpo me servia apenas pra reflexões, meu mundo desabou mais uma vez. Eu até tinha vontade de conversar com Carina durante aquelas caminhadas diária, mas já não conversávamos tanto, parecia que tínhamos nos tornadas pessoas tão diferentes que assuntos meus não a interessavam em nada e o contrário também ocorria. Talvez fosse coisa de irmã mais velha em que a gente vai se distanciando um pouco, uma vai amadurecendo mais que a outra, mudando os objetivos, ao ponto de que aquela amizade da infância se esvai com o tempo e já não nos parecíamos em nada. Ou era meu nível de loucura de que ela não era muito fã; talvez os rumores que corria na cidade a respeito de minha índole não a agradasse então ela escolhia não compactuar com minha loucura. Eu não sei bem, mas a gente não conversava quase nada. Minha vontade era de contar tudo pra ela, todos os meus planos, que fases já haviam sido concluídas, mas sempre que essa ideia me vinha à mente, eu concluía que aquela loucura era serviço de uma mulher só. Se eu a envolvesse, ela poderia me desencorajar ou mesmo querer tomar as rédeas e eu não tinha certeza se ela poderia suportar o peso daquela responsabilidade, tanto fisicamente quanto mentalmente. Eu sim, tinha forças, determinação e a loucura ao meu favor. Todos viam Carina como a sensata, a irmã de juízo, não era justo que eu a envolvesse com as minhas neuroses, corria o risco dela pirar e ficar com a mesma fama que eu nos quatros cantos da cidade. Não era justo mesmo... 

De repente, com o sol escaldante de sempre me suando a testa, me veio àquela velha sensação de perseguição novamente. Mas daquela vez meu coração acelerou; a realidade ao meu redor afunilou-se e meu mundo ficou do tamanho de uma caixa de fósforos. Tive dificuldade de respirar, o sol quente também não ajudava, eu senti que seria levada para o inferno naquele momento por alguma entidade do submundo. Uma angústia estranha, uma certeza absurda oriunda sabe Deus de onde tomou conta de mim e eu entrei em desespero. Carina, como sempre, caminhando a uns três passos a frente não notava o meu desconforto. Eu tentava gritar, mas era como em um sonho que a gente grita o mais alto que consegue, mesmo assim a voz não sai. Foi quando um carro vermelho, reluzente, passou a toda velocidade próximo do meu corpo já quase inconsciente batendo o retrovisor de raspão no meu ombro. Como eu me encontrava muito próxima do meio fio, não conseguiu me pegar em cheio. Eu cai sem ar no asfalto quente; o mundo ficou meio opaco, meus ouvidos zuniram, mas eu pude ver as lanternas traseiras do mesmo carro vermelho que nos levou pra dar uma volta naquela noite de 93, atropelar minha irmã em cheio, fazendo com que seu corpo desse uma pirueta no ar indo cair no asfalto que fervilhava devido à temperatura. 

O carro simplesmente se foi cantando pneu, assim como havia surgido. Eu fiquei no asfalto quente tentando gritar, mas minha voz ainda não encontrava meios de sair da garganta. Eu não sentia dor, apenas calor. Minhas lágrimas em conjunto com o suor umedeciam meus cabelos os fazendo grudar em meu rosto tapando assim quase que totalmente minha visão. Eu não tinha força nos braços, minhas pernas pareciam que nem existiam mais. Foi quando o mundo começou escurecer e a mesma cena de índios selvagens batendo tambor em meu redor de outrora me surgiu não sei de onde. Eu  não ouvia os sons da realidade, somente dos tambores dos selvagens que ritmados entoavam uma canção que dizia: levanta Val, levanta; Tum, Tum, Tum, levanta. Foi quando eu encontrei forças, respirei o ar mais quente que um ser humano poderia sentir adentrando o aparelho respiratório e corri em direção a minha irmã. À medida que eu me aproximava, a realidade batia nas minhas costas com o martelo da punição. Eu tinha provocado tudo aquilo. Se eu tivesse ficado quieta, se eu simplesmente tivesse continuado minha vida, assim como Carina me aconselhava, nada daquilo teria acontecido. 

Retirei os cabelos dos olhos, foi quando a última pancada me bateu a nuca ao ver Carina embebida em seu próprio sangue. Sua perna não estava numa posição normal, então mais uma certeza se apoderou de mim aquela tarde: eu tinha matado minha irmã. Eu não consegui mais chorar, só desfaleci diante do corpinho magro de Carina com minhas mãos trêmulas e os olhos esbugalhados, como se finalmente a minha transformação em demônio, o último estágio da metamorfose, tivesse sido concluído ali. Implorei que os selvagens me levassem naquele momento, pois eu sentia que não pertencia mais aquele mundo que com minhas próprias mãos eu havia destruído. Tudo que eu tocava, virava ruína, se desmanchava e eu não podia fazer nada pra mudar aquela maldição. Eu tentava encontrar outro culpado pra toda aquela desgraça, mas não conseguia; tudo era culpa minha. A psicóloga do manicômio me dizia sempre que não havia um culpado para os meus devaneios. Eu sempre soube até então que o culpado era Carlos Salgado, porém, naquele momento, eu me sentia o meu próprio algoz, pois todos os acontecimentos posteriores fora eu que dei vazão pra que desenrolassem. Se eu tivesse ficado quieta no meu canto?! Mas como não fazer nada diante das injustiças do mundo? Como não fazer nada vendo todos os dias o assassino de sua melhor amiga livre? Como ficar de braços cruzados vendo o desgraçado que te violentou de forma brutal vivendo como senão tivesse cometido crime algum? Não seria eu, Valquíria Deodato de Sousa, a adolescente apática que aceita tudo como se fosse um fantoche da vida. Não, não. Eu tentava encontrar algum fato que me isentasse da culpa, mas não importava o que pensasse, sempre me ocorria que eu era a única culpada.   Naquele instante, diante do calor e do sangue de minha irmã, eu existia e não existia de acordo com que a realidade me surgia, então, sem escolhas,  eu desapareci com o mundo a minha volta. Nada mais eu vi nada mais senti, até acordar com as luzes brancas de algum hospital me ofuscando a visão sabe Deus quanto tempo depois. 


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