domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu preciso falar sobre o verão de 1993 Capítulo XVIII








Pensei que a sensação de perseguição passaria à medida que eu visse mais pessoas tão logo me aproximasse do colégio, mas a sensação me era cada vez mais evidente. Sentia como se a qualquer momento alguém, alguma coisa, me puxaria pelo braço e me diria que era hora de prestar contas por toda a maldade que eu havia cometido. Mas era só sensação mesmo.

Quando chegamos à escola, o rapaz, levemente feio, que talvez não fosse tão marionete assim, me puxou pelo braço me jogando atrás de uma coluna dizendo-me que era hora de cumprir o combinado uma vez que ele tinha feito tudo que eu havia pedido. Sem pensar dei logo uma bronca nele:

- Não me puxa desse jeito, alguém pode ver e não vai ser bom pra gente. Era você que vinha me seguindo no caminho até aqui? 

- Você quer dizer, não vai ser bom pra você. Pensa que eu não sei do seu lance com o Jorge, aquele maluco fascinado por futebol. Falando nisso, eu não estou entendo qual é a sua com ele? Pode me explicar logo! E eu não tô nem ai se alguém me vir com você, vou ficar é feliz na verdade. E que papo é esse de que eu a segui até aqui, só te vi aqui na escola.
- Disse ele tentando me beijar, o que me custou muito desviar daqueles lábios grossos e assimétricos, mas consegui repeli-los a muito custo com um empurrão bem forte. 

- Esquece a perseguição. Você tá me cobrando ciúmes? É isso mesmo? Eu não acredito! A gente não tem nada garoto. Você precisa ainda me provar muita coisa pra eu cogitar a possibilidade da gente ficar junto. Acha mesmo que aquele gesto de conseguir o entorpecente e entregar ao policial seria o suficiente pra provar que você me ama. Não, não, querido. Eu preciso que você fique em silêncio, não conte nada a ninguém sobre o acontecido, quando eu me der conta que você realmente é capaz de guardar esse segredo, aí, pode ser que a gente fique. 
Eu precisava ganhar tempo com ele, não sabia se essa conversa ia realmente funcionar, mas eu precisava tentar. 

- Você pode não acreditar, mas eu te amo e vou provar isso pra você. – Disse ele com uma segurança como se tivesse no controle da situação. 

- Tá! Agora vai, antes que Carina nos veja. 
Com esse papo eu ganhei um pouco mais de tempo, mas eu não sabia quanto; um dia, talvez eu não pudesse mais manter aquele segredo. 

Quando eu pensei que tinha acabado, me aparece Jorge com mais cobranças. Mania que os homens têm de nos cobrar qualquer coisa o tempo todo, pois se não provamos que somos deles a todo o momento, eles não se sentem da gente. Maldita insegurança masculina.  Pelo menos ele não me vinha com frases clichês, era sempre divertido falar com ele.  

- Então, hoje eu tava ouvindo a rádio FM e segundo os astros eu realmente te amo. Logo, eu preciso saber se você aceita namorar comigo. Sabe, como a lua e marte, como a grama e a formiga, a flor e os rouxinóis, o anzol e o caracol. Hoje tô me sentindo muito apaixonado. Segundo meu signo, hoje pode ser um bom dia pra ser romântico. Disse ele sorrindo.  

- Eu tive que rir abertamente daquelas comparações nada a ver - e diante daqueles sorrisos que tanto me faziam bem em momentos que eu devia gritar para o mundo que tava tudo errado, eu respondi que sim, pois não tinha escolha; se existia uma pessoa que me fazia me sentir bem era Jorge. 

- Tá bom Jorge Luiz! Seremos como o Galvão e o Taffarel. Eu disse essas palavras gargalhando no intuito que ele entendesse que as suas comparações não acompanhavam o romantismo daquele momento pitoresco. Ele respondeu:

- Nossa! Essa comparação foi bem idiota, mas foi engraçada. Agora dá aqui esses lábios que somos como queijo e goiabada. 

Ah! Pelo menos acertou uma. 
Eu o beijei porque tinha que beijar. Quem dera a vida inteira fosse como enquanto se está apaixonada, tudo se resolve com uns beijos da pessoa amada. Quem nos viu durante aquele beijo foi sua ex-namorada, a garota que eu também tinha beijado e gostado. Jorge não a viu, mas eu a vi quando abri os olhos enquanto o abraçava. Ela não esboçou reação de chilique, como eu pensei, simplesmente sorrio, eu não entendi bem a razão, mas algo me dizia que eu iria descobrir em breve. Pelo menos não foi o garoto de outrora a nos flagrar naquele gesto tão romântico, se fosse, talvez ele tivesse iniciado uma briga. Jovens apaixonados são totalmente imprevisíveis, como eu mesmo era, pois sequer conseguia controlar meus impulsos, imagines os ímpetos alheios. 

Depois que eu tipo firmei um compromisso com Jorge Luiz, o tempo passou como sempre passa; eu mantinha meus planos exatamente como havia pensando. Eu pichava a data da noite de 93 nos muros que eu julgava que Carlos Salgado passaria, imediatamente tivesse a chance; eu deixava a boneca réplica de Tati, em um local onde intuitivamente eu imaginava que ele veria. Eu tocava aquela fita em toda parte, embora não desse pra ele ouvir, mas eu precisava todo dia fazer alguma coisa que me proporcionasse à sensação de que eu não estava de braços cruzados em relação ao crime cometido por aquele desgraçado. Talvez aquela altura eu já até tivesse esquecido o ódio que eu sentia por ele, mas eu não conseguia parar; o mundo ao meu redor não me permitia que eu freasse os meus anseios. Sem contar que uma noite ou outra eu revivia aquela noite em sonhos e acordava atordoada como se eu não pudesse acessar mais a realidade e fosse obrigada a viver aquela noite eternamente. Sempre eram uma tortura esses sonhos, e eu tinha a mais pura certeza que aqueles pesadelos só desapareceriam quando minha vingança fosse concluída. 

Quatro meses se passaram. Eu tive que me virar até as últimas consequências pra que o rapaz de poucos atributos físicos não revelasse o nosso segredo, mesmo depois que ele descobriu o meu romance com Jorge. A magricela, ex de Jorge, uma vez ou outra ainda me procurava pra uns beijos. Não vou dizer que era um sacrifício enorme beijá-la, era até bom, mas me confundia em demasia.
 Eu não sabia mais o que eu era, nem quem eu era, minha mente era uma confusão só. Pensava ser uma psicopata vivendo em um mundo aos pedaços que eu mesma construí com meus atos inconsequentes.

 Eu tentava enlouquecer um homem que talvez nunca fosse atingindo com minhas ações, embora ouvisse rumores que ele havia puxado a arma pra um colega e espancado uma garota na rua sem razão aparente. Mas seu pai era o delegado, tudo passava despercebido aos olhos do sistema, então não tinha como eu ter certeza que estava realmente funcionando. Minha amizade com a moça da Farmácia só aumentava. Eu mantinha, de certa forma, três relacionamentos conturbados com três pessoas próximas uma da outra. Qual era a chance de eu manter aquilo pra sempre? Eu vivia no mundo de Dom Quixote, acreditando em tudo aquilo que eu havia criado, sustentando tudo nas costas sozinha - e à medida que o tempo passava mais minha bola de neve crescia e a situação ficava mais insustentável. Minha mente e meu corpo estavam pra explodir e os estilhaços iriam atingir até mesmo quem não merecia. Eu tinha consciência de tudo isso, mas parecia que o colapso era inevitável.






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