terça-feira, 11 de julho de 2017

A morte






Ontem, como em tantas outras noites semelhantes, a morte me apareceu. Diferente do que se apresenta no imaginário das pessoas, ela não é uma dama charmosa com um vestido preto e uma ceifadeira brilhante. Também não ostenta um olhar dissimulado e uma voz sensual que te sussurra poesias ao pé da orelha. Tão pouco é um monstro com mãos gigantes e um olhar penetrante. Não. Ela não é nada disso. A morte é uma mulher gorda trajando unicamente um lençol de cetim. E em vez de uma ceifadeira, ela carrega uma pena de ouro e uma placa de marfim onde esculpe sem destreza as agonias dos últimos suspiros daqueles que têm que ir – e sem entender joças de literatura, julga serem estes relatos a mais fina poesia. 
Ela não tem classe alguma; muito pelo contrário, é estabanada, não consegue chegar de mansinho; já chega fazendo um alvoroço, quebrando os móveis, os vasos de flores, os espelhos. E come o tempo inteiro; seu principal pecado é o da gula. Enquanto ela permanece na poltrona que você batalhou a duras penas pra comprar, se vangloriando da dor que te proporciona, se lambuza com os seus sonhos não realizados, com os seus amores não vividos, os sentimentos guardados somente para si, com suas palavras não ditas e tudo o mais que você possa se arrepender. Ela é tão descarada que ainda rir de tudo. E se por acaso, durante este banquete dos deuses, cai uma migalha no assoalho, fato que ocorre sempre, ela, sem o mínimo de compaixão te oferece de volta, tal qual uma criança matreira que oferece um doce ao amigo sem intenção nenhuma de dar. Ela então rir e pergunta: olha esse amor que guardou a vida toda só para si? É uma delícia, mas como você pode saber se nunca lutou por ele. Quer outra oportunidade de vivê-lo, quer? – Então com a gargalhada de um palhaço sem talento, ela responde a própria pergunta. - Não meu querido, já não te resta tempo. Cá estou eu me alimentando da vida que você desperdiçou, e sabe o que eu acho de tudo isso: nada, só estou fazendo o meu trabalho. Então ela levanta-se e deixa que você sinta o cheiro dos abraços nunca dados, dos beijos nunca beijados – e diz como o carrasco que é, que nada nos pertence mais. 
Nos raros momentos que ela não está se alimentando, ela assovia as músicas que ouvíamos na infância somente pra que desenhemos na memória as cores do passado irremediável. 

Talvez sua aparência comum, seu jeito simples sem charme e requinte seja mais uma de suas estratégias pra que se intensifiquem nossas dores ao constatarmos que, apesar do sentimento de eternidade que sempre carregamos, ela seja o que de fato temos em comum uns com os outros. Talvez se eu fosse capaz de decifrar seus enigmas, ela já não tivesse necessidade de voltar quase toda noite. Mas prefiro assim, que ela sempre volte pra eu entender que preciso demais vida. Eu conclui, depois de tantas visitas, que ela se diverte comigo. Talvez já até tenhamos construído certa intimidade uma vez que somos muito parecidos. 

- Ah! Lá está ela de novo usando a minha poltrona do tempo. 

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