sábado, 10 de junho de 2017

Delírio






Um homem magricelo, cabelos negros, de pele tão branca que se vê as artérias e veias pulsando em azul anil sob a pele frágil devido a falta de melanina, caminha numa rua estreita rumo ao carvalho gigante no centro da cidade.

Febril, ele não percebe a vida ao seu redor.
Uma sacola plástica de supermercado voa livremente um pouco a frente de sua insignificante existência e ele não se dá conta que, assim como aquela sacola, ele também era levado ao sabor dos ventos daquele dia quente. Os seus passos não pareciam ser influência da sua vontade; pelo menos não daquela vontade que se sente com a certeza que se caminha em direção ao correto.
Toda a sua vida era um erro maldito. Nem mesmo se lhe perguntassem as horas, ele não podia responder com precisão, pois o ponteiro dos segundos do seu relógio de má qualidade se desprendera e agora girava de acordo com o movimento do seu braço. 

Em transe, ele via o mundo de uma ótica mística, como se ele se encontrasse em um aquário sob o sol do meio dia e os reflexos na água e no vidro fossem o véu pelo qual ele via o seu mundo. Nada era o que era. Ele existia, mas apenas em planos surreais da sua própria mente perturbada.

Por vezes, ele batia ombro a ombro com os passantes, mas era como se ele atravessasse a existência pequena daquelas pessoas reais; naquele instante ele era quase um Deus, existindo aqui e ali por frações de segundos de acordo com as crenças de homens comuns.

E se o mundo era um espelho d'água, seus pensamentos se dissolviam sem nexo, sem coerência: "o sol brilha há milhões de quilômetros de mim, mesmo assim, posso sentir na pele o seu calor como se ele fosse uma cabeça gigante que me sopra ar quente a fim de de que eu não esqueça que ele sempre esteve lá. No entanto, sua empreitada é inútil até que chegue ao extremo de queimar a plantação de alguém.

Como cheguei nesta ideia? "O universo é imenso, eu sou pequeno demais: um átomo que existe e não existe. Então por que vou me preocupar em procriar se há muitas outras pessoas que existem o tempo todo e podem fazê-lo com maiores chances de obterem êxito? Eu sou um pensamento, uma ideia, uma miragem de deserto, não posso passar minha existência pela metade para as futuras gerações. Machado de Assis tinha toda razão." 

Arrastando-se pelas paredes e calçadas, o homem chega até o carvalho gigante bem no centro da cidade, então sob a sombra da árvore real, ele retira seu violino da mochila - e ainda olhando pra si mesmo inicia a tocar as notas celestiais, não para os homens ali, mas para os anjos do seu mundo cor de água e céu. 
Se lhe jogam moedas, ele entende que são elas recompensas pelo fato de, embora por pouco tempo, ele existir plenamente.

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