domingo, 22 de outubro de 2017

Meia volta



Aos oito anos, acordaram entre si que se casariam tão logo completassem vinte anos. Bem, dezoito, na verdade. Se possível, com dezesseis seria uma idade mais razoável. Ora, esperar doze, dez anos, não seria viável, mas oito, era um tempo relativamente curto. Encantados, não atentavam para a matemática e não se importavam com o fato de que teriam que viver exatos mais uma vida até a data de se unirem pra sempre.  

Enamorados, trocavam bilhetes, regalos, sorrisos... Era como se aquele amor inocente fosse durar pra sempre. Tinha a escola que os juntava por quatro horas diariamente. Durante as tardes, se viam às três pra um refrigerante na casa de um ou de outro. Nos finais de semana iam à igreja e por assim iam...  
Até para os pais de ambos,  parecia mesmo que iriam permanecer juntos pra sempre. Já  tinham chegado ao ponto até de  adquirir certa semelhança física um com o outro, tamanha era convivência. O que mais se ouvia na cidade era que eles formavam um casal perfeito.   

À medida que o tempo ia passando, como era de se esperar,  a menina se desenvolvia mais rápido. Aos dez anos, todos já a chamavam de mocinha. Ele, no entanto, permanecia com as mesmas feições de quando tinha oito anos. Ela completou onze, doze, lhe surgiram curvas de mulher, seios, e ele, coitado, com exceção de uns centímetros na estatura, não havia mudado em nada. Então, no processo de desenvolvimento, aos poucos eles foram naturalmente se afastando, ao ponto de sem conversar sem nada, de não  andarem mais juntos, nem se falarem. Ela não queria ser vista com uma criança. E ele entendeu isso depois de ser ignorado e humilhado umas cento e oitenta e três vezes, no mínimo.   

Ainda sim,  quanto mais ela crescia, mas o pobre menino morria de amores. Ele foi obrigado acompanhar, embora de longe, os rapazes mais velhos assoviarem, elogiarem, tocarem e beijarem a sua amada sem poder mover um dedo.  Era de matar.

Mas como o tempo não para, aos catorze anos, o garoto deu aquela esticada típica de todo adolescente. Mas não ganhou corpo, era somente um adolescente espinhento de pernas finas e alto.  E como era de se esperar, se antes ela não queria andar com uma criança, com um moleque feio que todas as meninas tiravam sarro, era que não seria possível.

Até que chegaram aos dezesseis. Ainda se viam, mas sempre que se esbarravam, sentiam qualquer coisa  embaraçosa, pois se lembravam da promessa feita enquanto criança. Ainda mais aquele ano que seria o ano do casamento. Mas ela havia se tornado uma linda mulher, cobiçada por toda a cidade, não iria nunca mais olhar pra ele. E nesta de achar que tinha o mundo masculino aos seus pés, ela foi se dando ao mundo como quem se joga num travesseiro de pena de ganso.  

Aos dezoito, o adolescente magricelo, agora mais arrumado, foi pra faculdade.  A moça bonita de quadris largos e seios fartos, no entanto, por ser muito cobiçada, não lhe faltava convites pra festas, casas de praias e assim, seguiram cada um pro seu lado.

O tempo foi passando. Atingiram os vinte e cinco, vinte e seis.  Ele ainda se lembrava dela uma vez ou outra, talvez até ainda resguardasse alguma centelha daquele amor da infância e adolescência, mas era coisa do passado, amor que dá e passa; sentimento passageiro que ele sentia de segundo em segundo.      

Aos trinta e oito, ele professor universitário, solteiro e atraente, na sua melhor forma, não tinha interesse em se amarrar a ninguém. Parecia que aquele amor do passado iria mantê-lo sozinho pra sempre. Até que um dia, ao retornar a sua cidade natal, ele resolveu saber do paradeiro dela. E certo que a encontrou facilmente na varanda da sua antiga casa numa tarde de sexta.


Ao vê-la de longe ele sentiu uma raiva estranha. Escondeu-se, passou a observa-la: ela ainda mantinha certas características do passado, embora adicionado uns bons quilos aquele corpão de quando tinha vinte anos. Na verdade só os  olhos eram os mesmos. Então, antes que ela o visse, ele deu meia volta e foi-se embora contente em ser testemunha das voltas que o mundo dá.      

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