sábado, 2 de junho de 2018

Odete, a puta: um conto em Cearês


Atendendo as críticas pra colocar o meu Ceará nos meus textos, resolvi escrever este, totalmente em Cearês. Infelizmente, talvez somente os cearenses compreendam, mas somos muitos e podemos voar. 





Odete terre o primeiro filho com dezesseis anos. Aos dezenorre, mãe solteira,  morando sozinha com o curimim, sofria mais que surraco de aleijado. Trabaiarra de sol a sol na padaria da esquina pra alimentar o filho, pagar o aluguel e a prestação do celular, celular este que mais parecia um tijolo de tão grande, de modo que não sobrarra tempo nem dinheiro pra ela se dirrertir, (embora ela desse seu reito) muito menos pra cuidar do moleque, que passarra mais tempo na carra da ró do que com ela. Emprego melhor ela não podia arrumar, porque não tinha terminado nem o ensino fundamental dirrido a grarridez. Ela até sonharra em terminar os estudos, pelo menos o ensino médio, mas não tinha tempo pra nada, coitada, nem de farrer academia pra perder o bucho que adquirira graças as bolacha fofa que ela comia no trabalho. - Trabalho não, escrarridão -  esbravejarra Odete pra deus e o mundo aquela frase que mais parecia um refrão de forró na boca dela.  Só não reclamarra pra patroa, - “porque ruim com o emprego, pior sem ele.”. 
   
A rotina dela era tirar em tiriço de sete as sete na padaria, depois que saia do emprego, passarra na carra da mãe pra pegar o filho. Ao chegar à kitnet que morarra,  tomarra um banho chula, farria a janta; um arroz com mortadela, quando muito um pedaço de carne que a mãe lhe darra quando tirarra o bolsa família e ia dormir. Isso, quando o menino deixarra, porque não era todo dia que ele tarra no dia bom não.  O pai do menino, que era quem podia dirridir a responsabilidade com os cuidados da criança, sumiu imediatamente soube da grarridez. Era um operário de uma firma de energia eólica que trabalhou um tempo nos  arredores da cidade,  possirrimente casado.  
“Eu derria ter desconfiado que ele era casado! Quem já se riu alguém não ter Facebook hoje em dia?” Odete não se perdoarra por não ter se dado conta  daquele fato há tempo de impedir a bobagem de emprenhar. Isso na cabeça dela, porque todos na cidade tinham certeza que  mermo se ela soubesse que ele  tinha um arem e dez penca de filho, o destino de Odete teria sido o mermo. “Senão com ele, com outro... que mulher que nasceu pra não prestar, não tem home que desrrie ela do seu destino.” Dizia às rizinhas que não tinha nada o que fazer, senão, bisbilhotar a rida dos zoto.

Nas sextas e nos sábados, mermo cansada, ela não perdia uma seresta, um karaokê, fosse onde fosse,  - e só roltarra altas horas da madrugada e sempre acompanhada. Já deixarra o menino com a ró, rustamente pra não ter perigo de roltar pra casa só.  “Ora, eu trabalho feito uma condenada, e num tenho direito uma dirreçãozinha sequer? Eu mereço!” Dizia ela pras poucas amigas que tinha.   E todo sábado e domingo, Odete ia trabalhar ainda sob o efeito da cerrejinha, da ypióca, e até dum brawzim de rez em quando. “Num mata não! Só pra abrir o apetite.” Dizia ela aos risos. Mas acostumada à rotina, tirarra de letra e ninguém percebia se ela tarra alterada ou não durante o sirriço.
   
Depois de um ano e meio naquela rotina, numa sexta igual às outras, Odete se impiriquitando pra ir pra seresta na churrascaria da rua de cima, lhe ocorreu à iluminação. Enquanto refletia sobre os quinze reais que pouparia do moto táxi pra chegar à seresta uma vez que era na rua de cima, feliz porque sobraria mais dinheiro pra bebida com as amigas, ela se aluiu o quanto harria sido burra até aquela altura da rida. Odete era tinhosa, num aceitarra que home nenhum lhe pagasse bebida, que ela gostarra de poder escolher quem ia lerrar ela pra carra no final da festa, então não queria dírrida com ninguém. Mar ali, diante do espelho, deu uma olhada no seu corpo, notou-o ainda rígido, um pouco roliço, tá certo, mar ainda tudo em cima. “Oxe, ela só tinha dezenorre anos e não era de se rogar fora não.” Ocorreu-lhe que ela tarra era disperdiçando aquele corpão, aqueles zoião, aquela bocona embatonzada com aquele orgulho bobo. Tomou uma decisão firme naquela hora, que ia ganhar era dinheiro, que aquela rida de trabalho escrarro num era com ela não. “Uma mulher bonita que nem eu  tem que andar que nem uma princesa, igual aquelas dos clipe do Safadão...  Postar foto no Instagram nos barco e tudo,  com aquelas bebidas cuns guarda churrinha no copo, só charlando pras inimiga morrer de inrreja”. Odete ria enquanto se enchia de planos.  

Mais sagaz que coceira de cansanção, Odete resolveu colocar seu plano em prática. Na seresta, aceitou bebida do cara mais bem aparentado; um de meia idade,  perto de um Corsa verde escuro com um sonsão piscando aquelas luz colorida e o controle feito um cordão no pescoço só passando as músicas... Faceiro não, o cão!   E tome cerreja e ypióca pros pingunços que passarram por ali... E o tempo foi passando. Odete sendo tomada pelo álcool. O dinheiro do play indo pro saco.  Na hora de ir embora, ela não contou pipoca e mandou na lata:  “posso até ir embora contigo, mas só por cem conto - e é dinheirim na frente”. O cara olhou assim meio doido, rerificou a carteira, só restarra sententa conto, embora com um pouco de rairra, ofereceu os setenta. Odete, como era o primeiro, aceitou sem piscar. Ela ia dá pra ele de graça mermo caso ele não quisesse pagar, então foda-se, pensou ela. E foi! E  que noite hein!?

Odete acostumada aquelas noites de amor toda sexta e sábado, quase sempre com pessoas diferentes, sem ganhar nada, além de um prazer que quase sempre esquecia depois dirrido o nirre de álcool,  se riu seis da manhã com setenta reais, o dinheiro que ganhou mais fácil na sua rida miserárre. Na padaria ela demorarra três dias pra ganhar aquela quantia, de modo que reçaquiada, com setenta reais tinino na mão, ela pensou: “é o cão que rai mais praquele cirriço do demo. A égua daquela patroa que vá se fuder trabalhando sozinha. Mão de raca do cão aquela rapariga!”

E não foi mermo. Dormiu até meio dia, depois foi buscar o filho na casa da ró, lerrou na lanchonete, pediu um prato de carne e uns salgados pro filho, que ela não ia farrer almoço  uma rez que tinha dinheiro pra comer fora. A alegria que Odete sentiu naquele gesto rei simples de comer num restaurante com o dinheiro dela, era sem medida. Gastou a metade, mas se sentiu satisfeita, “que o dinheiro era dela, tarra sobrando, ela gastarra com o que bem queria”.  
   
E chegada à noite, foi como de costume deixar o filho na carra da mãe, se impiriquitou de novo - e tacou pra seresta. Como era mais longe que a da noite anterior, foram-se dez reais de moto táxi, mar não importarra, ela ia ganhar muito mais, tinha a ferramenta pra isso. Chegando, comprou uma carteira do melhor cigarro, sentou-se numa mesa, e   repetiu a merma coisa da noite anterior; escolheu a dedo o seu cliente e danou-se a beber. Por dentro ela pensarra: “eu fui muito besta de ter alimentado essa porra de orgulho, essa hora rá era pra eu tá rica. Mas sou norra, dá tempo!”.   E foi do reitim que ela imaginou, embora tenha ganhado em vez de cem, cento e ciquenta conto limpo e seco aquela noite. 

Na manhã seguinte, domingo, ela acordou e notou as cédona de cinquenta e de cem chega brilharra no lado da cama, e sem macho nenhum perto, o que era a melhor coisa.  Pense numa alegria! Ora, ela rá darra de graça mermo, ganhando então, era o paraíso. Roltou a dormir satisfeita da vida, sem nem lembrar que um dia existiu padaria.

Seis e meia da manhã, o entregador de pão da padaria bate na porta dela: Odete, tu num rai trabaiá não, cão? Rumbora que a patroa tá te chamano, mizéra. Ele tratarra ela assim, mar era carinhoso. Era só reito de falar! Durrido que não tirresse era apaixonado por ela. Sei que senão fosse ele na padaria, Odete já tinha escranchado as costa de tanto lerrantar peso.  
Odete lerrantou puta duas vez, escondeu o dinheiro na garreta da cômoda e disse pra ele entrar. Ele entrou pensando que ia tomar aquele café de sempre, no entanto, arristou Odete de Babydoll preto, toda sexy, sentada no lado da cama. Ele engoliu seco. Odete, percebendo a rergonha dele, disse sem pestanejar: “tu tem quanto ai em dinheiro Ormar?”.     

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