domingo, 27 de novembro de 2016

6 livros praqueles momentos de descrença no sonho de ser escritor

Só quem sonha em ser escritor sabe que nunca é fácil. O mercado editorial é cruel. Pra alguém se destacar no Brasil tem que ser especialista, jornalista ou famoso em outra área, uma vez que autores nacionais, em sua grande maioria, só vendem livros técnicos e biografias.  

Bem, um autor iniciante precisa investir na sua carreira e, mesmo assim, não é tão simples. Pra que o autor atinja o patamar de viver de seus devaneios, pra que chegue naquele tão sonhado nível em que seu nome aparece maior que o título na capa do livro, não é nada simples e pode demorar uma vida toda e é, nesse meio termo, que muitos desistem, principalmente nesses novos tempos de ansiedade em que queremos que tudo aconteça no piscar de olhos. Só que na literatura, querendo ou não, a realidade há de se encarregar de lhe colocar no chão.  

Bem, por inúmeras vezes o sentimento de descrença na minha literatura e no meu talento fora abalada, e sempre que esse sentimento me assolava o acaso me trouxe livros cujos serviram de incentivo pra eu continuar acreditando. E como o principal requisito para um bom escritor é beber de boas fontes,  faço aqui uma pequena lista de alguns desses livros que me ajudaram e ajudam a não desistir dessa quase utopia de me tornar um escritor reconhecido. A lista se encontra na ordem em que li e não me aterei as sinopses dos livros, apenas contarei minha experiência.   

O apanhador no campo de centeio J.D Salinger 



O apanhador no campo de centeio, na verdade, é um livro que me ajudou no momento que, embora eu soubesse que queria ser escritor, eu não tinha certeza de nada. É um livro que trata dos anseios de um jovem que não sabe ainda o que quer, que odeia tudo e a todos e fuma; esse maravilhoso livro de estilo único me fez compreender que não ter um espaço aparente no mundo é normal. E que aquela angustia oriunda da pressão de ser alguém na vida, na verdade só nos torna infelizes e que, se queremos chegar a velhice e não ter a sensação de que vivemos a vida de outros, é preciso coragem pra se despir das vestes que a sociedade nos impõe.  Super recomendo para aquele momento de crise existencial. Em relação a ser escritor, lê-lo me trouxe paciência, pois me fez compreender que o fato de eu não existir ainda, é normal e que só preciso de tempo

O encontro Marcado Fernando Sabino 

Esse livro, meu caro, é mais uma daqueles que narra a busca por seu eu interior.  Como o livro trata de uma garoto que sempre busca seu espaço, me ajudou demais no momento em que o talento, segundo minha percepção, tinha se esvaído ou nunca existido em minha pessoa.
Uma vez vendo uma entrevista a Fernando Sabino, entrevista essa que me fez conhecer o autor (vejo todas as entrevistas com escritores que posso, isso me ajuda a conhecer a vida, os anseios e mazelas de um escritor, deixo essa dica aqui também) eu descobri uma filosofia linda,  que é também o ponto forte do livro o encontro marcado, filosofia esta que até hoje carrego comigo: é a ideia que as soluções de nossos problemas sempre surgem quando precisamos. Ele diz até que, sempre quando realmente precisava de dinheiro, bastava baixar o olhar que ele encontrava na rua. É maravilhoso e, apesar da descrença, sempre funciona.
Bem, voltando ao assunto, o livro trata de um garoto que se aventura pela escrita, então pra quem deseja ser escritor, nos faz imaginar uma vida sendo um escritor reconhecido, logo faz com que aquela centelha que existe no peito de todo sonhador  não se apague. Não deixe de ler, caso já não tenha lido. É simplesmente maravilhoso.

Uma confraria de tolos, J.K Toole 


Puta que pariu! Essa é a frase que me vem à mente quando penso nesse livro.
Uma confraria de tolos é praquela parte da sua sua vida enquanto artista em que os parentes e conhecidos lhe aporrinham pelo fato da arte ser inglória e não render louros, ou melhor, dinheiro. Esse livro é, "simplesmente" (sentindo de tudo) a terapia que você precisa para quando sua mãe chegar pra você e disser: "vai arranjar um emprego seu vagabundo, não vou te sustentar a vida toda." Sabe, além de uma obra genial que te arranca risos e lágrimas, a maioria das vezes ao mesmo tempo, também lhe serve para suportar os dissabores enquanto luta por sua arte, por seus sonhos mesmo quando todos desacreditam e dizem pra você desistir.  Essa obra me ajudou a aceitar a lama do meu presente, com o argumento que tais provações, na verdade, me tornam cada vez mais forte.  Esse livro mudou toda minha concepção de vida. Talvez mude a sua também. Ironicamente eu descobri esse livro lendo uma lista dos livros que as pessoas começam e não terminam de ler. Talvez a maior injustiça que alguém tenha cometido na literatura. Toole, o autor, tirou a própria vida logo depois de terminar essa obra prima e foi sua mãe quem levou o manuscrito para uma editora. Mas espera, como alguém que tirou a própria vida pode inspirar a vida? Simples: quem mais entende da vida é quem não a suporta. Enfim, é simplesmente um livro tragicômico genial. O sofrimento é o tempero da arte. Guarde isso com você!  


Crime e castigo de Dostoiévski 


Não podia deixar de lado Dostoiévski, meu escritor favorito; Sabe aquele autor que conhece você mais do que você mesmo? Pois é, Dostoiévski em relação a minha pessoa! 
Se tratando de crime e castigo então, fico cheio de palavras pra explicar. 
Bem, todo escritor tem uma personalidade forte de modo que presunção e soberba no início da carreira parece um carma que todos carregam, chamo isso da síndrome de Raskolnikov, ou, síndrome de aspirante a escritor. Não estou aqui criticando, essa soberba é fundamental. E foi exatamente essa soberba que crime e castigo fomentou na minha jornada como escritor e me ajudou continuar acreditando, mesmo quando os resultados e a fama que eu esperava não me surgiu como num passe de mágica como imaginava. Lógico que não chego ao extremo da personagem do livro em achar que me encontro acima da lei, mas essa soberba me é tão evidente que seria justo que existisse um funcionário da corte com a única função sussurrar ao meu ouvido que eu não passo de um merdinha de nada, assim colocando meus pés no chão. Quer livro mais essencial para um escritor? Todo escritor que se prese, não querendo menosprezar ninguém, precisa ler crime e castigo. Só acho...     

Pergunte ao pó de John Fante


Nenhum livro me emocionou tanto e me fez acreditar que eu era capaz como Pergunte ao pó de John Fante; simplesmente o li quase sem respirar, pois me identifiquei demais. Foi mais um livro que li naquela hora em que eu sofria a pressão da sociedade pra ser alguém na vida. Como ainda sofro. Maldita pressão! Todos me aporrinhando o tempo todo pra que eu arranje um emprego numa churrascaria, já que não tenho talento pra nada e não posso viver sem dinheiro. Como fazê-los acreditar que se eu arranjo um emprego não tenho tempo pra minha literatura e deixo de viver. É difícil entender? Só quem passa por essa pressão diariamente sabe como é ruim viver no limiar  da subsistência. Depois que li pergunte ao pó, uma frase tornou-se um mantra na minha vida e não sei bem como que seria minha sobrevivência senão fosse ela: 

"Oh Bandini, falando com o reflexo no espelho da penteadeira, quantos sacrifícios você faz por sua arte! Podia ser um capitão de indústria, um comerciante rico, um jogador de beisebol da grande liga, o arremessador líder com uma média de 415; mas não! Aqui está você, arrastando-se ao longo dos dias, um gênio passando fome, fiel à sua sagrada vocação. Que coragem você possui!"

Ainda sou um "zé ninguém passando fome" só que não no deserto californiano, e sim, no calor do litoral cearense.  Agora, gênio? haha, coitado de mim! E é só... Foda-se! Pausa pra reflexão... Vamos pro ultimo livro, Quer sentir que nem sempre são flores, leiam Pergunte ao pó.  


As ilusões perdidas de Balzac 


As ilusões perdidas; o título já diz tudo. Essa obra está sendo útil pra eu me entender enquanto pessoa e escritor. Vem me ajudando a compreender que todo escritor é egoísta e invejoso, que o sistema não ajuda e tudo mais. Embora o livro descreva o mercado editorial francês do século XIX com um estilo próprio de Balzac, duvido muito que o mercado editorial contemporâneo seja muito diferente do narrado no livro, afinal, pessoas são pessoas. O livro narra a jornada de um sonhador que também se acha um gênio da literatura, só que sofre as mais trágicas privações para conquistar um lugar ao sol e tem seus sonhos jogados por terra inúmeras vezes. Assim como eu e talvez você!  Eu considero as ilusões perdidas, outro livro essencial pra todos que se aventuram pela arte da escrita. Na verdade os seis livros da lista são essenciais.

Concluindo: esses livros têm em comum uma lição crucial para qualquer escritor que é: "o bagulho é louco e o processo é lento."

Samuel Ivani 







2 comentários:

  1. Gostei muito da sua seleção de livros.
    Não conhecia nenhum deles, e como você fala de cada um é realmente inspirador.

    Boutique de Clichês

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  2. Muito bom. Gostei do tema e me ajudou muito com alguns dos livros da lista que ainda não li e com sua descrição, opinião sobre cada um.

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