domingo, 3 de dezembro de 2017

Futuro escritor







Aos sessenta e dois anos eu serei um velho frustrado carregando a certeza que não me tornei o grande escritor que poderia ter sido porque lutei pouco. E ainda que o mundo a minha volta evidencie que tal realidade se construiu devido a minha falta de talento, eu teimarei em não acreditar, pois assim mantenho a fé que ainda posso conseguir, crente que o que me faltou foram oportunidades, não talento.

É provável que eu culpe também a ordem social que me obrigou a buscar relacionamentos duradouros, a usar roupas de marcas, a manter um maldito padrão aceitável pra que eu tivesse amigos, pra que eu mantivesse a possibilidade de me reproduzir, embora nunca o tenha conseguido de fato. E esta tal ordem também me obrigou a empregos que eu nunca quis, a suportar gente intragável, a ser quem eu nunca suportei ser, tudo pra não ser excluído de uma sociedade do TER em detrimento do SER. Assim, o tempo que eu poderia ter gasto aperfeiçoando minha literatura, eu gastei não sendo Eu. E mais uma vez fujo da dura realidade que o que nunca tive foi talento.

Culparei também o déficit educacional brasileiro que não incentivou a leitura. Gritarei pro meu gato preto, único companheiro que terei àquela altura, bordões como: o Brasil é um país que não lê; a maioria é constituída de analfabetos funcionais; os brasileiros só leem livros de Youtubers.
Ora, como é que eu posso querer ser lido em país de burros se meus textos são profundos, cheios de mensagens subliminares e ironia? É como jogar pérolas aos porcos.
Com esta estratégia, em vez de admitir minha falta de talento, minto pra mim mesmo que o que tive foi talento demais, e o público consumidor raso é que não foi capaz de compreender a profundidade dos meus escritos.

Vejam que, aos sessenta e dois anos, eu ainda não passarei de um adolescente sonhador que tem como principal talento negar a realidade. Nem mesmo um pouco sábio eu serei, porque se fosse, eu teria compreendido, sei lá, aos cinquenta anos, que nunca tive talento pra literatura, que seria melhor ter ido vender cheiro verde de porta em porta como aconselhou tantas vezes minha mãe em vez de sonhar ser escritor.
Mas eu sei, com toda certeza, que mesmo que eu dure oitenta anos, ainda encontrarei desculpas pra me enganar que eu tenho sim talento como Dostoiévski, Balzac e outros grandes da literatura. E sabe por quê? Porque eu não sou nem obrigado a aceitar a realidade. Prefiro viver dos meus sonhos irrealizáveis. E que a sociedade me jogue pra onde ela bem entender, que eu finja ser um professor meia boca, um garçom frustrado, cortador de lenha, um bosta em tudo, em minha mente eu ainda serei o maior escritor que este país já viu ou verá. Quer aceitem, quer não. Há quem tenha nascido pra morrer de sonhar.

2 comentários:

  1. Você gosta de escrever, escreve falando de si, às vezes penso ser ficção. Preciso entender melhor, mas essa reflexão que você faz de você, vai cada vez mais te fazendo bem.. . Penso que trata-se de um processo natural de você com você mesmo. Não sei se me fiz entender.

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    1. Até quando escrevo em terceira pessoa, ainda estou falando de mim. A única ferramenta que tenho pra construir minha obra sou eu. Somente sobre a minha pessoa é que passo alguma convicção. Você entendeu muito bem!

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